21
out
11

ilíada, canto 1 – teatro guaíra, mini auditório – curitiba/pr

O Canto I da Iliada, com Claudete Pereira Jorge, esteve em cartaz no Mini Auditório do Teatro Guaíra dos dias 29 de setembro a 9 de outubro de 2011. A montagem contou com a iluminação de Beto Bruel e figurino de Ricardo Garanhani. A operação da luz durante a temporada foi realizada por Danielle Regis. O projeto gráfico dos materiais impressos, cartaz, banner e folders foi desenvolvido por Marcelo De Angelis e a fotografia é de Gilson Camargo. O espetáculo é patrocinado pelo Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, com incentivo da Copel e Sanepar e apoio da Secretaria de Estado de Cultura do Paraná através do Conta Cultura, Teatro Guaíra e da Rádio e Televisão Educativa do Paraná. A realização é da NBP Produções e da Cia. Iliadahomero de Teatro.

Sinopse do Canto I da Iliada de Homero:

Após invocar a Musa, Homero narra a expulsão de Crises, sacerdote de Apolo, por Agamemnom, rei dos gregos. O sacerdote oferece ouro em resgate de sua filha Criseida, prisioneira de guerra e escrava predileta de Agamenon. O rei não aceita a oferta e ameaça o sacerdote de morte. Crises foge, humilhado, e roga vingança ao deus Apolo que inflige uma terrível peste aos gregos. A situação se agrava até que Aquiles, inspirado pela deusa Juno, protetora dos gregos, convoca os aliados para uma assembléia e propõe que se consulte um adivinho. Calcas Testórides, o adivinho, por temer a reação de Agamenon, pede proteção a Aquiles antes de falar. Aquiles, em tom arrogante, garante proteção ao adivinho. Calcas Testórides revela a origem da ira de Apolo e vaticina que o Deus se aplacará somente quando Criseida for restituída ao pai acompanhada de uma hecatombe. Agamenom se vê obrigado a libertar Criseida, mas, para ressarcir-se da perda, ameaça Aquiles de tomar-lhe à força sua escrava predileta, Briseida. Aquiles, ofendido, avança sobre Agamenon para matá-lo, porém, desiste do intento por interferência de Minerva e o agride apenas verbalmente, jurando retirar-se doravante da guerra. Nestor Nelides, ancião respeitado entre os gregos e exímio orador, intervém. O velho pede moderação à ambos. Aquiles se retira da assembléia, e desesperado, procura sua mãe, a deusa Tétis, a quem pede vingança. A mãe, compadecida, promete intervir em seu favor junto à Júpiter assim que ele retorne ao Olimpo. Agamenon manda arautos buscarem Briseida. Aquiles, em obediência à Minerva, concede que a levem. Neste ínterim, por ordem de Agamenon, Ulisses comanda a expedição para devolver Criseida ao pai. Os sacrifícios são realizados, o sacerdote retira a maldição e Ulisses retorna ao acampamento dos gregos. Passados 12 dias, Tétis assedia Júpiter no Olimpo e pede vingança contra Agamenon pela injúria ao filho. Júpiter, por dever favores à Tétis, concede ao pedido, mas teme represálias dos deuses que o acusam de favorecer aos troianos. Juno, enciumada e percebendo a artimanha de Tétis, inquire Júpiter sobre a visita inesperada. Júpiter reprime a esposa por lhe fazer perguntas indiscretas e ameaça dar-lhe uma surra. Juno retira-se chorosa com os demais deuses e é consolada por seu filho Vulcano, que faz chiste de si mesmo, e mancando, lembra à mãe do castigo que recebeu por ter ousado contrariar seu pai. Anoitece, cai o sono sobre os deuses e todos vão dormir como se nada estivesse acontecendo.

Uma apresentação extra foi realizada no dia 11/10/11 para gravação em vídeo. A documentação, destinada à produção de um programa televisivo, foi feita pela equipe da TV Educativa do Paraná, com direção de Cyro Ridal (imagem acima).

Assista acima a um fragmento do espetáculo gravado em vídeo. Abaixo, o discurso de Nestor, em texto integral na versão de Manoel Odorico Mendes e no original grego.

Numes eternos, oh! que luto à Grécia!
Oh, que júbilo a Príamo e a seus filhos!
Folgue Ílio à nova de que assim litigam
Os de mor pulso e tino. Obedecei-me,
Sou velho, ó moços. Tido em boa conta
Com melhores que vós me dava outrora.
Varões vi nunca, nem verei, qual Drias
Das gentes regedor, Ceneu e Exádio,
Um Pirítoo, um divo Polifemo,
Teseu Egides a imortais parelho.
Outros como estes não nutria a terra:
Feros pugnaram trucidando a feros
Montícolas Centauros. Lá de Pilos,
Da Ápia eu vinha rogado; conversava-os,
Quanto era em mim nas lutas me exercia.
Ninguém dos vivos de hoje os contrastara;
Atendiam contudo os meus conselhos:
Atendê-los vos praza. Ao mais estrênuo
Tu não tomes dos nossos a só paga;
Nem de ao rei contravir, Pelides, cures;
Dos eleitos que Júpiter estima,
Cetrígero nenhum se lhe equipara:
Mãe deusa te gerou, valor te sobra;
Tem ele mais poder, que impera em muitos.
Eu to suplico, Atrida, a fúria amaina,
Sê brando para quem nesta árdua empresa
É baluarte e escudo aos Gregos todos.”

ὦ πόποι ἦ μέγα πένθος Ἀχαιί̈δα γαῖαν ἱκάνει
ἦ κεν γηθήσαι Πρίαμος Πριάμοιό τε παῖδες
ἄλλοι τε Τρῶες μέγα κεν κεχαροίατο θυμῷ
εἰ σφῶϊν τάδε πάντα πυθοίατο μαρναμένοιϊν,
οἳ περὶ μὲν βουλὴν Δαναῶν, περὶ δ’ ἐστὲ μάχεσθαι.
ἀλλὰ πίθεσθ’: ἄμφω δὲ νεωτέρω ἐστὸν ἐμεῖο:
ἤδη γάρ ποτ’ ἐγὼ καὶ ἀρείοσιν ἠέ περ ὑμῖν
ἀνδράσιν ὡμίλησα, καὶ οὔ ποτέ μ’ οἵ γ’ ἀθέριζον.
οὐ γάρ πω τοίους ἴδον ἀνέρας οὐδὲ ἴδωμαι,
οἷον Πειρίθοόν τε Δρύαντά τε ποιμένα λαῶν
Καινέα τ’ Ἐξάδιόν τε καὶ ἀντίθεον Πολύφημον
Θησέα τ’ Αἰγεί̈δην, ἐπιείκελον ἀθανάτοισιν:
κάρτιστοι δὴ κεῖνοι ἐπιχθονίων τράφεν ἀνδρῶν:
κάρτιστοι μὲν ἔσαν καὶ καρτίστοις ἐμάχοντο
φηρσὶν ὀρεσκῴοισι καὶ ἐκπάγλως ἀπόλεσσαν.
καὶ μὲν τοῖσιν ἐγὼ μεθομίλεον ἐκ Πύλου ἐλθὼν
τηλόθεν ἐξ ἀπίης γαίης: καλέσαντο γὰρ αὐτοί:
καὶ μαχόμην κατ’ ἔμ’ αὐτὸν ἐγώ: κείνοισι δ’ ἂν οὔ τις
τῶν οἳ νῦν βροτοί εἰσιν ἐπιχθόνιοι μαχέοιτο:
καὶ μέν μευ βουλέων ξύνιεν πείθοντό τε μύθῳ:
ἀλλὰ πίθεσθε καὶ ὔμμες, ἐπεὶ πείθεσθαι ἄμεινον:
μήτε σὺ τόνδ’ ἀγαθός περ ἐὼν ἀποαίρεο κούρην,
ἀλλ’ ἔα ὥς οἱ πρῶτα δόσαν γέρας υἷες Ἀχαιῶν:
μήτε σὺ Πηλείδη ἔθελ’ ἐριζέμεναι βασιλῆϊ
ἀντιβίην, ἐπεὶ οὔ ποθ’ ὁμοίης ἔμμορε τιμῆς
σκηπτοῦχος βασιλεύς, ᾧ τε Ζεὺς κῦδος ἔδωκεν.
εἰ δὲ σὺ καρτερός ἐσσι θεὰ δέ σε γείνατο μήτηρ,
ἀλλ’ ὅ γε φέρτερός ἐστιν ἐπεὶ πλεόνεσσιν ἀνάσσει.
Ἀτρεί̈δη σὺ δὲ παῦε τεὸν μένος: αὐτὰρ ἔγωγε
λίσσομ’ Ἀχιλλῆϊ μεθέμεν χόλον, ὃς μέγα πᾶσιν
ἕρκος Ἀχαιοῖσιν πέλεται πολέμοιο κακοῖο.


Octavio Camargo e Claudete Pereira Jorge durante ensaio no mini auditório do Teatro Guaíra.

O espetáculo vem percorrendo diversas cidades brasileiras desde 2005, e foi apresentado na Biblioteca Pública do Paraná, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo e na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Na Europa, a performance foi apresentada nas cidades de Berlim, Skopje, Amsterdam e Atenas. Em 2006, participou da I Bienal de Arte Contemporânea de Thessaloniki, na Grécia.

Documento em vídeo da apresentação completa no dia 02 de outubro de 2011 – 38 minutos.

19
jun
11

giacomo joyce – leitura dramática na biblioteca pública do paraná – bloomsday 2011

O evento Bloomsday acontece em Curitiba há 12 anos, desde 2000. No Brasil inteiro, esse nosso evento aqui, que congrega várias instituições, é o terceiro em antiguidade. Em São Paulo se faz desde 1988, em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul desde 1994 – tem uns malucos lá que lêem Joyce, gostam e estão ligados ao ambiente acadêmico – no Rio de Janeiro também volta e meia o evento acontece. Mas, atualmente, e isso foi contabilizado esse ano, o Brasil é o país em que há mais cidades comemorando o Bloomsday, o que é siginificativo, porque estamos competindo neste âmbito com os Estados Unidos. Só o fato de vocês estarem aqui hoje é significativo sim porque se trata de algo que acontece mundialmente em termos da cultura universal.
Ivan Justen Santana

Bloomsday é a festa literária que ocorre simultaneamente em diversos países em homenagem ao escritor irlandês James Joyce e seu livro Ulysses, cuja história se passa inteiramente no dia 16 de junho de 1904. Publicado em 1922, o livro influenciou os rumos da ficção contemporânea.
A data foi comemorada em Curitiba nos dias 14, 15 e 16, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná (BPP), com entrada franca, em iniciativa do Museu da Imagem e do Som (MIS).
A Cia. Iliadahomero participou do evento no dia 16/06, com a leitura dramática realizada pela atriz Helena Portela, dirigida por Octavio Camargo, do livro Giacomo Joyce, traduzido para o português pelo curitibano Paulo Leminski e editado em 1985 pela Editora Brasiliense.

O Giacomo Joyce talvez não fosse uma escrita pra ser publicada… parece que foi um romance ou uma paixão que o Joyce teve por uma aluna, ele fez lá algumas anotações, mas que, enfim, se perderam e essas anotações não foram publicadas. Elas foram depois resgatadas por um irmão e em função da celebridade do Joyce acabou o texto chegando até nós.
Em relação a cidade, esse texto é especialmente importante porque foi a primeira publicação aqui da cidade de Curitiba de uma tradução do James Joyce feita pelo Paulo Leminski. Eu acho que a presença do Leminski deve ter influenciado isso também, pra que o pessoal tão precocemente aqui começasse a se interessar pelo Joyce.
O texto é composto por alguns parágrafos que foram encontrados no caderno dele e independente da verdade histórica de se esse romance com uma aluna aconteceu ou não, nesse pequeno livrinho o Joyce se ufana, de alguma maneira, de que isso aconteceu. Acho também que ele não foi inicialmente pensado como um texto dramatúrgico, e aqui fica, para uma platéia muito especial, o registro de que gostaríamos de dividir com vocês esse “experimento”.
A leitura do texto vai acontecer entre quatro blackouts e ele tem um desenvolvimento dramático de palestra aula. Curiosamente Joyce era um professor de inglês e o tradutor desse texto também foi professor muitos anos, o Leminski deu aula em cursinhos, então ele tem também um pouco dessa inspiração. Eu vou deixar vocês com a Helena e vou ficar lá em cima apagando e acendendo a luz. Então… Joyce.
Octavio Camargo

“Quem? Um rosto pálido circundado por pesadas peles perfumadas. Os movimentos dela são tímidos e nervosos. Ela usa um monóculo. Sim: uma sílaba breve. Um riso breve. Um breve bater de pálpebras.(…)
Teia de aranha sua caligrafia, traçada longo e fino com tranqüilo desdém e resignação: uma garota de categoria.”

“Aqueles frios dedos serenos tocaram as páginas imundas e lindas, onde minha vergonha irá brilhar para sempre. Frios dedos serenos e puros. Será que nunca erraram?
Seu corpo não tem cheiro: uma flor inodora.
Nas escadas. Uma frágil mão fria: timidez, silêncio. olhos escuros lânguidos e líquidos: cansaço.
Turbilhões de vapor cinza sobre o banhado. Seu rosto, como estava cinza e solene! Emaranhados cabelos úmidos. Seus lábios apertam suave, o hálito sofredor se solta. Beijada.
Minha voz, morrendo nos ecos de suas palavras, morre como a voz exaustisábia do Eterno chamando Abraão através dos ecos das colinas. Ela se encosta contra a parede acolchoada: feições de odalisca no escuro luxúria. Seus olhos beberam meus pensamentos: e dentro da úmida morna submissa escuridão convidativa da sua feminilidade minha alma, também se dissolvendo, derramou e verteu e transbordou uma semente líquida e abundante…… Agora coma-a quem quiser!….”

“Despreparo. Um apartamento nu. Nojenta luz do dia. Um grande piano preto: túmulo da música. Equilibrado em sua borda um chapéu de mulher, com flores vermelhas, o guarda-chuva, fechado. Seu brasão: capacete, escarlate, e lança sem ponta sobre um fundo, preto.
Dedicatória: Me ame, ame meu guarda-chuva.”

Link para o texto integral na traduçao de Paulo Leminski


Após a leitura houve a exibição de As Alucinações de Ulisses (1967) – dirigido por Joseph Strick. Primeiro filme de longa-metragem adaptado de uma obra de James Joyce.

É preciso entender, é claro, que a incompreensibilidade de uma obra é, como tudo mais, historicamente determinada: questão que sucessivas leituras irão pouco a pouco resolvendo, até criar em torno do corpo estranho certo número suficiente de constelações hermenêuticas, interpretações, diluições, sobretudo, que nos permita pisar no terreno firme da redundância, do já sabido, do “estou começando a entender”. Em arte, o novo sempre se manifesta sob a modalidade do difícil. (Nota de Paulo Leminski)

Fotos: Gilson Camargo

18
jun
11

iliada e morte e vida severina

O projeto “Iliada e Morte e Vida Severina” foi selecionado pela Bolsa Funarte de Circulação Literária. A iniciativa, de Lourinelson Vladmir, vem apresentando textos referênciais da língua portuguesa e autores como Fernando Pessoa, Camões, Odorico Mendes, João Cabral de Melo Neto, entre outros, através de palestras e récitas dramáticas ao público jovem. Reproduzimos aqui o texto publicado sobre o projeto e um vídeo com depoimentos de pessoas que participaram das récitas.

Publicado originalmente na página quemtemmedodepoesia.wordpress.com

Melopeia. Do prazer de cantar palavras.

A Melopeia é o termo utilizado por Aristóteles para referir-se ao poetas gregos da Antiguidade clássica, quando oralizavam suas poesias pelas ágoras e praças públicas. Suas poesias oralizadas conseguiam uma espécie de melodia, musicalidade – fruto da própria vivacidade associada à oralização -, por isso eram chamados aedos. Um dos teóricos modernos que resgatou o conceito de melopeia foi Ezra Pound. Além de nada se distanciar do sentido que a antiguidade clássica grega conferiu ao termo, a teoria de Pound é a que mais se aproxima do que sugerimos aqui como forma de encontrar uma fruição prazerosa da poesia. O teórico referencia este conceito como o ato de produzir correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala.

A proposta de utilização de dois textos com as características formais – Ilíada e Morte e Vida Severina – visa privilegiar a oralização pela percepção da melopeia. É pelo canto, pela toada, pelo ritmo, pelo prazer musical que a récita de versos métricos proporciona, que almejamos conquistar o interesse do público não apenas para conhecer os conteúdos destes poemas – fundamentais! – mas principalmente assumir o gosto de narrá-los em voz alta. É tocando-os com os pulmões, com a voz, que os mitos contidos nestes poemas – é a tese de Pound – vem mostrar-se como arquétipos, como espelhos de nós mesmos. Ler estes textos não basta porque é pelos ouvidos que essa experiência se aprofunda.

Em termos antropológicos é preciso resistir a hegemonia da sensibilidade visual: da cultura do olho. E nisto a poesia deve ser alçada a um um papel de formação e resistência. Não se pode exigir que as novas gerações compreendam a poesia sem lhes oferecer a experiência da leitura de poemas e da récita. A experiência da poesia é uma experiência sobre a língua: sobre a música e as possibilidades criadoras da língua. E neste caso tratam-se de mestres no trato da língua portuguesa, mesmo em relação a Ilíada!, uma vez que a versão proposta para trabalho é a de Odorico Mendes, feita em decassílabos heroicos, considerada por Haroldo de Campos uma obra patrimônio da língua portuguesa.

Homero: os mitos: Importância e contexto

“Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo“, disse Marcel Proust (1871-1922), autor da obra-prima Em Busca do Tempo Perdido. Isso acontece quando os personagens retratados servem de inspiração e reflexão para leitores de qualquer época e lugar. E isto não tem nada a ver com erudição; é o poder da arte: uma obra da antiguidade clássica é capaz de mobilizar as experiências cotidianas do homem contemporâneo. Homero oferece-nos um fabuloso retrato da humanidade: o mito. Estimular a circulação das imagens mitológicas é abrir mais um campo de reconhecimento e reinvenção para o homem. A humanidade não é, está sendo; os personagens de Homero são o mais antigo e rigoroso espelho artístico do homem ocidental. E os Severinos de João Cabral são arquetípicos da identidade brasileira. Estes mitos/arquétipos tem muito a nos dizer. Que tem medo de ouvir?

Ilíada Morte e Vida Severina: quem tem medo de poesia?

No que diz respeito a proposta, acrescentamos que mais do que a experiência de conhecer o argumento dos épicos, seu enredo e ouvir trechos de seus momentos de pico, é indispensável instrumentalizar as pessoas no sentido de tomar as rédeas destes poemas, sua intensidade e paixão. São de fato apaixonantes e é esta paixão que o projeto objetiva tocar; uma paixão que suplante a ideia de dificuldade.

De fato não é fácil. Há quem diga impossível. Há quem diga “Homero?! o povo gosta mesmo de novela”. Pode até ser verdade; mas gosta agora, por razões históricas, tecnológicas, políticas, enfim – melhor manter este texto em banho morno -, mas certamente não é um fado, uma sina cultural. Um outro gosto pode ser cultivado. Ações hoje com vistas ao amanhã. Se nossos educadores fruírem verdadeiramente a poesia, então seus alunos poderão fruí-la também, e seus futuros filhos também. Se nada for feito, nada será feito. Mas o tempo e a história exigem de nós o desejo de apostar naquilo que é necessário mesmo que agora nos pareça impossível. É preciso fazer. É preciso dizer Não ao NÃO. Contrariar essa lógica barata do “NÃO”, que é como uma praga: a saúva no nosso processo educacional, artístico, cultural. Tese: as pessoas necessitam e querem conhecer e reviver os mitos fundadores da humanidade e do povo brasileiro. Está tudo aí, é preciso fazer, tentar, talvez vencer e então mostrar que é possível, para então passarmos sem tanto esforço a dizer sim, sim, sim; é evidente que sim!

Louri – 25 de maio de 2010

Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a maioria dos versos está estruturada em redondilhas maiores, métrica das poesias mais populares de Camões. Na Ilíada, de Homero, Odorico Mendes opera mais do que uma tradução, uma verdadeira transcriação do poema, utilizando o verso decassílabo tal como Camões em Os Lusíadas.

16
ago
10

homero nas bibliotecas

PROJETO DE DIVULGAÇÃO À LEITURA NAS BIBLIOTECAS INTEGRANTES DO SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS (SNBP)

1 DESCRIÇÃO RESUMIDA

Homero nas Bibliotecas é um projeto baseado na obra Ilíada, de Homero, na tradução em português de Manoel Odorico Mendes (São Luís do Maranhão, 24 de Janeiro de 1799 — Londres, 17 de Agosto de 1864), apresentado ao PRONAC sob a forma de três subprojetos: um de teatro, outro de incentivo à leitura e o terceiro de registro audiovisual. Os três projetos aprovados viabilizarão a apresentação itinerante, ao longo de dois anos, em declamações literais e completas, dos XXIV cantos da Ilíada em 9 (nove) capitais brasileiras, nos auditórios das bibliotecas integrantes do SNBP – Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, totalizando 216 (duzentas e dezesseis) apresentações, registradas e documentadas em vídeo e amparadas em material impresso de apoio e incentivo à leitura.

O projeto será executado pela ASSOCIAÇÃO CULTURAL E ARTÍSTICA ILÍADAHOMERO, associação civil sem fins lucrativos fundada em 2008 e sediada em Curitiba-PR, no seio da qual são realizados os trabalhos da Companhia Iliadahomero de Teatro, em atividade desde 1999. As apresentações serão realizadas por 24 atores convidados pela associação (já identificados e compromissados com este projeto), supervisionados por uma equipe formada por um diretor e quatro assistentes de direção e com apoio e coordenação de um grupo de produtores.

As nove capitais escolhidas para sediar a execução do projeto são: Curitiba-PR, São Paulo-SP, Rio de Janeiro-RJ, São Luiz-MA, Brasília-DF, Salvador-BA, Recife-PE, Belém-PA e Porto Alegre-RS.

link para video institucional da Cia Iliadahomero


Apresentação de Claudete Pereira Jorge no hall da Biblioteca Pública do Paraná, em 24/10/08.

2 OBJETIVOS DO PROJETO

Mediante aprovação do PROJETO DE INCENTIVO À LEITURA, realizar a encenação dramática integral da Ilíada de Homero, na tradução de Odorico Mendes, em nove capitais brasileiras, por 24 atores profissionais (cuja participação será viabilizada por um PROJETO DE APOIO TEATRAL), que se apresentarão nos auditórios de bibliotecas do SNBP e cujas apresentações serão documentadas em vídeo, mediante aprovação do PROJETO AUDIOVISUAL.

Após dois anos de apresentações (divididos em 8 ciclos trimestrais), o projeto terá como conseqüência a divulgação, para largo público,da Ilíada de Homero (um dos textos matriciais da literatura ocidental) e adivulgação, também com ampla ressonância no país, da pioneira obra tradutória de Manoel Odorico Mendes (1799-1864).

Adicionalmente, nos termos do projeto de incentivo à leitura, cada ciclo trimestral de apresentações contará com material de apoio impresso, sob a forma de um jornal tablóide, com tiragem expressiva, contendo os trechos da Ilíada na tradução de Odorico Mendes (em domínio público) objeto daquele respectivo ciclo, além de outros textos opinativos de divulgação literária e ensaios sobre a obra, da lavra de scholars e especialistas na obra em questão.

Aliás, a proponente já detém experiência bem-sucedida em edição de jornal alusivo ao tema, como se pode ver na anexa edição especial do Jornal da Biblioteca Pública do Paraná, alusivo a apresentações independentes iniciais, ao longo dos anos de preparação que culminam neste projeto:

Estes jornais (em número de oito – o mesmo número de ciclos trimestrais para apresentação completa da obra em dois anos) serão distribuídos pelos executores do projeto nas bibliotecas integrantes do SNBP que forem sediar as apresentações.

Também como POLÍTICA DE INCENTIVO À LEITURA, as edições, podendo ser colecionadas pelos seus destinatários, formarão, ao longo de dois anos, 90.000 edições autônomas (em papel jornal) da Ilíada de Homero (na tradução de Odorico Mendes), obra literária em domínio público, cujas edições mais conhecidas há muito estão esgotadas no mercado editorial brasileiro. Trata-se de contrapartida social inestimável.

Este é, em suma, o objetivo do presente projeto.

3 JUSTIFICATIVA E CONTEXTO DO PROJETO

3.1 HOMERO E A ILÍADA

Seja por essa conotação editorial, seja pelo pioneirismo da apresentação oral no Brasil (talvez em todo o mundo) da Ilíada de Homero (no caso, na tradução de um dos expoentes brasileiros máximos na tradução de textos clássicos), o presente projeto contempla política de incentivo à leitura e de divulgação literária de importância incontestável.

Homero foi o primeiro grande poeta grego cuja obra se tornou conhecida pelo Ocidente. Embora não haja dados biográficos completos (suficientes, inclusive, para que se tenha certeza se o mesmo realmente existiu), Homero teria vivido na Grécia no Século VIII a.C. e, com as obras Ilíada e Odisséia, consagrou o gênero épico na cultura ocidental.

A Ilíada é um poema épico grego que narra os acontecimentos ocorridos em um período de pouco mais de 50 dias, durante o décimo e último ano da Guerra de Tróia, envolvendo personagens arquetípicos como Aquiles, Helena, Páris, Heitor, Agamémnom e o panteão de deuses gregos.

A Ilíada é constituída por 15.693 versos em hexâmetro dactílico, forma métrica que tradicionalmente constitui a poesia épica grega.

É habitual considerar-se que a obra tenha nascido da tradição oral, ou seja, teria originalmente sido uma obra popularmente cantada pelos aedos (ou rapsodos) e apenas muito mais tarde é que os versos teriam sido compilados numa versão escrita, no século VI a.C. em Atenas.

Naquela oportunidade, o poema foi dividido em XXIV Cantos, divisão que persistiu até as versões mais recentes do texto. Esta divisão é atribuída ao ciclo da Biblioteca de Alexandria, mas pode ser anterior.

A Ilíada é influência incontestável em toda a cultura clássica. Era estudada e discutida na Grécia Antiga (onde era parte da educação básica) e, posteriormente, no Império Romano. Sua influência pode ser sentida nos autores clássicos, como na Eneida, de Virgílio e, mais tarde, na Comédia, de Dante e em muitas outras obras literárias.

É considerada, com justo motivo, como a obra fundadora da literatura ocidental e uma das mais importantes da humanidade. Do que se conclui que qualquer política – pública, privada ou mista – de incentivo à leitura e divulgação literária que a contemple estará, literalmente, nutrindo-se da fonte primária que alimenta esta mesma política.

3.2 A ILÍADA, NA OBRA TRADUTÓRIA DE ODORICO MENDES

Há diversas traduções da Ilíada em língua portuguesa, tanto em verso quanto em prosa adaptada. A qualidade e a fidelidade de tais traduções variam muito, havendo textos disponíveis de todos os gabaritos, tanto no Brasil quanto em Portugal. Das traduções brasileiras, a mais antiga – e uma das mais notáveis – é a do maranhense Manoel Odorico Mendes, publicada no século XIX.

Odorico Mendes (São Luís do Maranhão, 24/01/1799 — Londres, 17/08/1864) foi político, editor, polemista e humanista brasileiro, autor das primeiras traduções integrais para português das obras de Homero e Virgílio. É até hoje a única pessoa a ter vertido para a língua portuguesa toda a obra dos dois poetas máximos da Antiguidade Clássica. É considerado, também por isso, como o mais bem acabado humanista do mundo lusófono.

A obra tradutória de Odorico Mendes, lamentavelmente, é desconhecida do grande público brasileiro, a despeito de ter tido, por Haroldo de Campos, como o “pai da transcriação literária no Brasil”.

A tradução de Odorico Mendes, toda em decassílabos (métrica dos Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões), se notabiliza por uma rica escolha lexical e por uma incomum estrutura sintática. Um aspecto essencial que diferencia a obra em relação às traduções mais recentes é o compromisso do autor com a língua portuguesa. Odorico contempla a historicidade do idioma e assim recupera obras canônicas como os Lusiádas, dando nova vida ao vocabulário camoniano.

Bem mais recentes são as traduções de Carlos Alberto da Costa Nunes (1962), de Haroldo de Campos (1993) e do português Frederico Lourenço (2005), todas incomparáveis ao pioneirismo e vigor léxico da tradução de Odorico Mendes.

Matriz literária do Ocidente, a Ilíada de Homero é o mais antigo texto escrito nos limites do Sol-Poente que chegou até nós e, decorridos vinte e nove séculos, continua mais fresco que o jornal que vai sair amanhã. Registrados no então recém-criado alfabeto grego, no oitavo século antes de Cristo, numa Grécia ainda arcaica, porém remontando a uma tradição oral que extrapolava ao infinito este limite e este tempo, os dezesseis mil versos da Ilíada, nas palavras de Haroldo de Campos, nunca decaem, oscilam entre o Pico das Agulhas Negras e o Everest. Tal monumento literário mereceu em todas as línguas modernas ocidentais o esforço dos mais insignes tradutores. O português teve a fortuna de ter do brasileiro Manuel Odorico Mendes (1799-1864), seu mais bem-acabado humanista, segundo José Veríssimo, a primeira tradução completa, vertida diretamente do original grego para a nossa língua, culminando num original português da Ilíada. Outras boas versões vieram, novas virão, oxalá sobejem, explorando e expondo a riqueza e possibilidades oferecidas pelos originais homéricos, mas dificilmente alguma, ou por razões artísticas ou por razões históricas, poderá abalançar-se a este patrimônio cultural dos países de língua portuguesa. A Ilíada de Odorico Mendes sempre representará um tesouro a quem a possua, em que pesem as dificuldades apresentadas pelo texto. Restringir essas dificuldades aos últimos limites de nossa competência, entregando o leitor às delícias do poema, mais que traduzido, transgrecizado, foi o firme propósito desta edição, que traz, a cada verso, uma nota espelhada ao texto.

3.3 ABORDAGEM PARA A DIVULGAÇÃO DO TEXTO

A primeira edição da Ilíada em português data de 1874 (dez anos após a morte de Odorico Mendes), editada pelo maranhense Henrique Alves de Carvalho. Até pouco tempo esgotada no mercado editorial brasileiro, a última
edição conhecida do texto datava da década de 1960 (CLÁSSICOS JACKSON, V. XXI, W. M. Jackson Editores).

Em 2008, após várias décadas de edições esgotadas, foi publicada pela UNICAMP uma nova – mas em tiragem limitada – edição revisada da Ilíada, na tradução de Odorico Mendes, com prefácio e vastas notas explicativas do escritor e lingüista Sálvio Nienkötter.


Sálvio Nienkötter

A Companhia Iliadahomero de Teatro (cujas atividades se desenvolvem no seio da ASSOCIAÇÃO CULTURAL E ARTÍSTICA ILÍADAHOMERO) tem como um de seus objetivos (inclusive estatutários), ampliar e difundir, mediante políticas próprias ou com apoio de terceiros, o acesso do público aos grandes textos da literatura universal.

Uma das formas precocemente identificadas para a execução prática de tais políticas é a encenação dramática desses textos. Em função das reformas realizadas no ensino brasileiro nas últimas décadas, o acesso às fontes da literatura clássica e da língua portuguesa praticamente desapareceu das escolas, tendo sido trocado por políticas de ensino com foco predominante para a instantaneidade do vestibular ou para solicitações mais utilitaristas do mercado de trabalho.

Em prática desde 1999, a enunciação dramática do texto de Homero e Odorico Mendes pela Companhia Iliadahomero de Teatro se consolidou como um robusto vetor de acesso literário. Técnicas consagradas de enunciação e encenação são capazes de aproximar até mesmo o público sem formação literária da fruição de aspectos essenciais desta obra fundadora da literatura.

Nos cerca de nove anos de apresentações itinerantes da Ilíada pela Companhia Iliadahomero de Teatro, diversos dos XXIV cantos foram encenados (em teatros, auditórios públicos e privados, entidades culturais, galerias de arte, exposições, mostras, estabelecimentos noturnos), no Brasil e fora dele, totalizando expressivo número de espectadores (certamente de milhares).

Seguem imagens das apresentações do texto, desde 1999:


Lori Santos (Curitiba-PR, 2000) – Canto III.  Apresentação no Espaço Cultural Beto Batata. 17/12/2000.


Patrícia Reis Braga (Vitória-ES, 2000) – Cantos XXI e XXII


Claudete Pereira Jorge (Wonka Bar, Curitiba, 2005)


Richard Rebelo (Casa do Saber, São Paulo-SP, 2006) – Canto XVI


Claudete Pereira Jorge (Curitiba-PR, 2007) – Canto I


Richard Rebelo (Curitiba-PR, 2007) – Canto XVI

Os links abaixo oferecem imagens da itineração dos cantos da Iliada em teatros e bibliotecas nas performances de Richard Rebelo, Claudete Pereira Jorge, Lori Santos e Patricia Reis Braga.

Biblioteca Mario de Andrade (SP)
http://www6.prefeitura.sp.gov.br/noticias/sec/cultura/2006/08/0012
http://organismo.art.br/blog/?p=1469 <http://organismo.art.br/blog/?p=1470>

Fundação Biblioteca Nacional
http://organismo.art.br/blog/?p=1470

Casa do Saber (SP)
http://organismo.art.br/blog/?p=1488
http://www.casadosaber.com.br/curso.php?cid=188

Entrevista com Claudete Pereira Jorge na mostra conSerto
http://video.google.com/videoplay?docid=-8648892101673233597&q=claudete+pereira+jorge&hl=en

em Thessaloniki

http://organismo.art.br/blog/?p=2047
http://organismo.art.br/blog/?p=2162

em Athenas
http://www.reconstruction.gr/en/news_dtls.php/26

em Berlin
http://organismo.art.br/blog/?p=2157

em Skopje

http://organismo.art.br/blog/?p=2121

Todo este histórico de apresentações (das quais estas imagens são mera amostragem), formou ao redor da proponente, nos últimos anos, massa crítica para discussão da obra (e de sua metodologia de apresentação), em debates, saraus literários e rodas de discussão, pessoais ou virtuais, envolvendo profissionais das mais variadas áreas (professores, escritores, poetas, lingüistas, fotógrafos, cartunistas, produtores, editores e outros).


Exemplo de colaboração: Cartaz de um ciclo de apresentações (2006), pelo premiado cartunista Solda.

Em razão disso, nos últimos anos, a proponente vem contando com o afluxo de contribuições oriundas das mais diversas formações e áreas do conhecimento, gerando um sem-número de obras derivadas (registros e ensaios fotográficos e em vídeo, trabalhos ilustrativos, resenhas, cobertura jornalística).

Outro fenômeno foi a aproximação da companhia com outras pesquisas da Ilíada na tradução de Odorico Mendes, como o riquíssimo trabalho de revisão textual, pesquisa semântica e anotação lingüística de Sálvio Nienkötter (editado em 2008 pela UNICAMP) e que foi empregado, nos últimos anos, como material de apoio para formação técnica dos atores e pesquisadores da Companhia Iliadahomero de Teatro (que também será empregado neste projeto).

Exemplo de outras pesquisas da obra: recente edição (Ateie Editorial, 2008) da revisão anotada da tradução da Ilíada de Homero por Odorico Mendes, pelo pesquisador lingüístico Sálvio Nienkötter.

A metodologia prevista para a execução do projeto prevê a formação completa (como divulgadores literários) de um quadro de 24 atores (todos já selecionados e compromissados, como se pode ver adiante), para a apresentação  dramática dos XXIV Cantos da Ilíada na tradução de Odorico Mendes e a apresentação itinerante destes atores em bibliotecas públicas de nove capitais brasileiras, na condição de veículos vivos de divulgação textual.

A cada ciclo trimestral de apresentações (cada qual composto por três Cantos de um total de XXIV), os espectadores e o público em geral receberão um veículo impresso de apoio literário (um jornal em formato tablóide), contendo o texto (em domínio público) de cada um dos Cantos previstos para o respectivo ciclo, acompanhado de resenhas, glossários, textos e outras obras derivadas e correlatas.

Ao final dos dois anos de projeto, os espectadores e o público em geral que tiverem colecionado tais jornais terão em mãos milhares de edições completas (e gratuitas) da Ilíada de Homero, na tradução de Odorico Mendes, obra há muito indisponível e esgotada no mercado editorial brasileiro.


Muniz Sodré, presidente da Fundação Biblioteca Nacional e Ilce Cavalcanti – Cordenadora do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas durante Simpósio na FBN

3.4 CONTEXTO DO PROJETO NO SNBP

“Promover a melhoria do funcionamento da atual rede de bibliotecas, para que atuem como centros de ação cultural e educacional permanentes”; “Favorecer a ação dos coordenadores dos sistemas estaduais e municipais, para que atuem como agentes culturais, em favor do livro e de uma política de leitura no país” e “Firmar convênios com entidades culturais, visando a promoção de livros e de bibliotecas”.

E aqueles que, adicionalmente, tiverem tido o privilégio de assistir às apresentações dramáticas dos XXIV Cantos nas bibliotecas participantes terão sido destinatários de uma política de incentivo à leitura original e inovadora (paradoxalmente, sob a forma como se acredita que a Ilíada era divulgada nos tempos da tradição oral), recebendo formação suficiente para atuarem como agentes reverberadores do texto em suas próprias comunidades e ampliando, de forma incalculável, os efeitos de tal política de incentivo.

Após diversas apresentações, nos últimos anos, em auditórios de bibliotecas brasileiras, como a Biblioteca Pública do Paraná, a Biblioteca Mário de Andrade, a Biblioteca Nacional e outras, percebeu-se que, para ampliação dos trabalhos já existentes e apresentação completa dos XXIV Cantos da Ilíada, as bibliotecas integrantes do SNBP – SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS seriam, intuitivamente, o território ideal para o florescimento de tais trabalhos de divulgação literária.

É sabido que o SNBP, instituído pelo Decreto Federal n. 520/92, tem como objetivo principal o fortalecimento das bibliotecas públicas do país, assumindo, como pressuposto básico para o desenvolvimento de suas ações, a função social da biblioteca pública.

Tal pressuposto leva a concluir que cabe à biblioteca pública, enquanto centro de informação e leitura, usar a informação como instrumento de crescimento pessoal e de transformação social.

Naturalmente, a atuação do SNBP no âmbito das bibliotecas públicas brasileiras só se faz possível mediante processos sistêmicos, voltados para a interação e integração de tais bibliotecas em âmbito nacional.

O projeto ora apresentado se insere de forma indiscutível nesta perspectiva, pois visa levar ao público usuário das bibliotecas públicas de nove importantes capitais brasileiras – de forma integrada e sistêmica – um único projeto de incentivo à leitura de obra fundamental da literatura universal.

4 HISTÓRICO DAS ATIVIDADES DA PROPONENTE

Os antecedentes históricos dos trabalhos de pesquisa literária e teatral da Companhia Iliadahomero de Teatro remontam a 1999.

Como preliminar à pesquisa da obra tradutória de Odorico Mendes, ocorreu uma apresentação do projeto “Ao Redor da Mesa”, no Teatro Paiol, em Curitiba-PR, em 1999, quando, dentro de um conjunto de pequenas peças de teatro musical, Octávio Camargo fez uma leitura dramática de um fragmento das Geórgicas, de Virgílio, traduzida pelo poeta Jacques Brand, que havia sido recentemente publicada no livro Brisais.

A enunciação daquele texto, abordada sob um ponto de vista musical e sonoro, decorreu também das pesquisas que Camargo desenvolvia, naquela época, com o texto de Luiz Vaz de Camões, Os Lusíadas, numa adaptação de fragmentos desta epopéia falada simultaneamente a uma suite de J. S.Bach ao violão.

O estudo da obra de tradução de Odorico Mendes da Ilíada de Homero surgiu como uma decorrência natural desta pesquisa, principalmente pela importância deste texto na literatura universal e, secundariamente, pelos aspectos fonéticos e sonoros contidos em suas traduções.

A partir de dezembro de 1999, portanto, iniciaram os primeiros ensaios com atores convidados.

Nesse período inicial, diversos cantos foram estudados pelos seguintes atores: Richard Rebello (Canto XVI), Patricia Reis Braga (Cantos XXI e XXII), Simone Spoladore (Canto XVII), Cristiane de Macedo (Canto II), Lori Santos (Canto III), Katia Horn (Canto XIII), Fabiana Ferreira (Canto XIX), Leticia Guimarães (Canto XVIII), Eliane Campelli (Canto XIV), Celia Ribeiro (Canto VIII), Lala Scremim (Canto IV), Pita Belli (Canto XV) e Andressa Medeiros (Canto XXIV). Este primeiro conjunto de atores estudou e ensaiou integralmente seus respectivos monólogos (totalizando 14 dos 24 cantos da Ilíada) neste período, em apresentações privadas, até 2002.

Ao longo do mesmo período, outro grupo de atores também teve contato com o texto e seus demais cantos, ainda que com menor intensidade que o primeiro grupo. Foram eles: Tupaceretã Mateus (Canto XII), Thaís Tedesco (Canto X), Mauro Zanatta (Canto VI), Fernanda Farah (Canto VII), Chiriz Gomes (Canto XI) Altamar (Canto XV), Marli Gott (Canto XXIII).

Finalmente, um terceiro grupo de atores, naquele mesmo período inicial, demonstrou interesse preliminar no trabalho: Luiz Felipe Leprevost (Canto V), Leticia Sabatella (Canto XX), Guta Stresser (Canto IX), Silvia Natureza (Canto XXI), Gilda Elisa (Canto XXIII), Zeca Cenovicz (Canto XXIII).

Em abril de 2000, foi realizada a primeira apresentação oficial e pública da Companhia Iliadahomero de Teatro, em um encontro de Secretários de Cultura, em Faxinal do Céu-PR. Naquela oportunidade, Octavio Camargo fez uma leitura integral do Canto I da Ilíada, num domingo, às 8 horas da manhã.

Em 17 dezembro de 2000, foi feita a primeira apresentação pública conjunta de quatro cantos da Ilíada: Octavio Camargo (Canto I), Lori Santos (Canto III); Richard Rebello (Canto XVI) e Patricia Reis Braga (Cantos XXI), no Espaço Vultural Beto Batata, em Curitiba/PR.

É oportuno anotar que, ao longo desse mesmo período, estavam em andamento os trabalhos de revisão e anotação da tradução da Ilíada de Odorico Mendes, elaborada por Sálvio Nienkötter, pesquisador lingüístico independente de Curitiba, que vem acompanhando os trabalhos da Companhia Iliadahomero de Teatro desde seus primórdios.

Frei Beto durante ensaio da Cia. Iliadahomero no Espaço Cultural “Venda”, em Curitiba – 2009

Em vista das dificuldades e peculiaridades da obra tradutória de Odorico Mendes, referido trabalho de revisão foi empregado, nos últimos anos, por vários dos atores iniciais para a contextualização lingüística de cada um dos cantos estudados e, após devidamente licenciado, servirá de material de apoio para a formação dos atores e divulgadores textuais no âmbito deste projeto.

A segunda apresentação do mesmo conjunto de Cantos aconteceu em março de 2001, na Reitoria da UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (Sala Homero de Barros, Ed. Dom Pedro II, Curitiba-PR). Naquela ocasião, os cantos foram apresentados em quatro sessões, de terça a sexta, um canto por noite, precedidos de uma fala introdutória do professor do Departamento de Línguas Clássicas da UFPR, Alexandre Moura.

Estas apresentações, subseqüentemente, resultaram em um contato feito com os organizadores de um encontro de Literatura Clássica, que aconteceu em Ouro Preto-MG, também em 2001, no qual Patricia Reis Braga fez uma  apresentação do Canto XXI.

Tal pesquisa resultou em uma reedição do texto revisado da Ilíada de Homero, na tradução de Odorico Mendes, publicada em 2008 pelo selo Atelier Editorial, da UNICAMP (ISBN 8574803936).

Nos anos de 2001 e 2002, Patricia Reis Braga fez apresentações do Canto XXI em Joinville-SC, no Festival de Monólogos de Fortaleza-CE e na Academia Maranhense de Letras, em São Luís-MA.

No final do ano de 2001, foi feita uma apresentação destes mesmos quatro cantos na cidade de São Paulo-SP, em sarau organizado por Gavin Adams, em sua própria residência. Estavam presentes atores e diretores de teatro, entre eles,  Fernando Kinas e Giovana Soar. Nesta primeira viagem oficial da Companhia Iliadahomero de Teatro, Sálvio Nienkötter preparou edição especial de suas anotações à Ilíada de Odorico Mendes, relativa aos cantos que seriam apresentados. Participaram desta expedição Octávio Camargo, Sálvio Nienkötter, Gisele Nienkötter, Lori Santos e Richard Rebello. Patricia Reis Braga, que também se apresentou, residia em São Paulo-SP naquele período.

A partir de 2003, Patricia Reis Braga também passou a estudar e desenvolver o Canto XXII, em diálogo com Sálvio Nienkötter, iniciando o ciclo de apresentações “Ao Sol de Homero”. Outras apresentações incluem:

Ao longo do mesmo período, Sálvio Nienkötter também dirigiu algumas apresentações de textos relacionados com a Ilíada em colégios e espaços teatrais de Curitiba.

Em 2004, iniciou-se o trabalho de pesquisa do Canto I da Ilíada com a atriz Claudete Pereira Jorge. A primeira apresentação se deu cerca de um ano depois, no final de 2005, no Wonka Bar, em Curitiba. Nesse mesmo dia, Sálvio Nienkötter também apresentou fragmentos do Canto I.

Nos anos subseqüentes (de 2005 a 2007), as apresentações do quarteto de atores formado por Patricia Reis Braga, Claudete Pereira Jorge, Richard Rebello e Lori Santos (os mais avançados no estudo da obra tradutória de Odorico Mendes) se sucederam, nos mais variados locais e contextos:

Estruturação jurídica e institucional da Companhia Iliadahomero como associação civil sem fins lucrativos. Eleição de primeira diretoria e estabelecimento de suas diretrizes;

De volta ao Brasil, a Companhia Iliadahomero promoveu uma apresentação do Canto XVI, por Richard Rebello, no Act Espaço Teatral, em Curitiba-PR e uma apresentação do Canto I, por Claudete Pereira Jorge, na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro-RJ, em dezembro de 200710 11. Após estas apresentações, desenvolveram-se, ao longo do de 2008, os trabalhos de:A artista Katia Horn também apresentou trechos do monólogo por ela ensaiado em alguns eventos. O professor de literatura e pesquisador literário Paulo Bearzoti trouxe importantes contribuições nos anos de 2006 e 2007, propiciando aprofundamento de pesquisa dos “The Cantos”, de Ezra Pound, além de experimentações de enunciação oral de alguns fragmentos da Odisséia, de Homero, na tradução de Odorico Mendes.

Em 2009, a convite do Instituto Brasileiro de Museus, O ator Richard Rebelo apresentou o Canto XVI no salão nobre do Museu da República, RJ, por ocasião da comemoração do Dia Internacional dos Museus.

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São estes trabalhos, desenvolvidos ao longo dos últimos meses (e fruto de experiência e estudos acumulados desde 1999, aqui relatados), que resultam no projeto ora proposto.

5 VIABILIDADE DO PROJETO NO TOCANTE ÀS REGRAS DO PRONAC E DO SNBP

O presente projeto é absolutamente viável no que se refere às regras específicas dos mecanismos públicos de apoio e incentivo à cultura e, adicionalmente, no que se refere às regras específicas do SNBP.

Em primeiro lugar, o projeto atende os princípios gerais dispostos no art. 1º da Lei Federal 8313/91, que instituiu o PRONAC – Programa Nacional de Apoio à Cultura.

Sim, pois trata-se de projeto que contribui “para facilitar, a todos, os meios para o livre acesso às fontes da cultura e o pleno exercício dos direitos culturais” (inc. I), preserva “os bens materiais e imateriais do patrimônio cultural e histórico brasileiro” (inc. VI), desenvolve “a consciência internacional e o respeito aos valores culturais de outros povos ou nações” (inc. VII), estimula “a produção e difusão de bens culturais de valor universal, formadores e informadores de conhecimento, cultura e memória” (inc. VIII) e prioriza “o produto cultural originário do País” (inc. IX).

Incentivar a leitura da Ilíada de Homero – obra fundamental da cultura ocidental – pelo público brasileiro é, obviamente, uma forma óbvia de desenvolver a consciência internacional e o respeito aos valores culturais de outros povos ou nações, bem como estimula a difusão de bens culturais de valor universal, formadores e informadores de conhecimento, cultura e memória.

Fazê-lo mediante a divulgação da obra tradutória do Século XIX do maranhense Manoel Odorico Mendes (pioneira em língua portuguesa) implica, evidentemente, em priorizar o produto cultural originário do país e em preservar um bem imaterial do patrimônio cultural e histórico brasileiro.

Finalmente, executar tal política por meio da apresentação itinerante desta obra, ao longo de dois anos, em bibliotecas públicas de nove capitais brasileiras (representativas de todas as suas regiões: Sul, Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste) é, naturalmente facilitar, a todos, os meios para o livre acesso às fontes da cultura e o pleno exercício dos direitos culturais.

Por sua vez, o Decreto Federal 520/92 (que instituiu o SNBP, sistema de bibliotecas públicas no âmbito do qual o projeto se desenvolverá) contém princípios gerais que – não só permitem – como recomendam o apoio a iniciativas como a deste projeto.

Observe-se que o artigo 1.º do decreto instituidor do SNBP preceitua que um dos objetivos do sistema é o de “favorecer a formação do hábito de leitura, estimulando a comunidade ao acompanhamento do desenvolvimento sócio-cultural do País”.

Já o artigo 2.º diz que o SNBP tem como objetivos “promover a melhoria do funcionamento da atual rede de bibliotecas, para que atuem como centros de ação cultural e educacional permanentes” (inc. II) e “favorecer a ação dos coordenadores dos sistemas estaduais e municipais, para que atuem como agentes culturais, em favor do livro e de uma política de leitura no País” (inc. VII).

Sem sombra de dúvida, um projeto que, ao longo de dois anos culminará em 216 apresentações dramáticas dos 24 Cantos da Ilíada de Homero nas bibliotecas públicas de 9 capitais brasileiras e, adicionalmente, na entrega gratuita ao público, de 90.000 edições (colecionáveis em 8 fascículos) da obra (em domínio público, mas de acesso quase impossível à comunidade), favorece a formação do hábito da leitura e transforma a rede de bibliotecas em centros de ação cultural, em favor do livro e de uma política de leitura no país.

A aprovação do projeto no PRONAC poderá contar com o apoio do próprio SNBP/FBN – ente destinatário do plano de incentivo à leitura ora descrito – na avaliação e análise do mesmo.

De acordo com os artigos 3.º, IV e 29 do Decreto 1494/95 (que regulamenta o PRONAC e estabelece a sua sistemática de execução), a FBN é “entidade supervisionada da SEC/PR” (a partir da Lei 8490/92 convertida em MinC) e tem como competência analisar projetos cujo segmento seja “patrimônio Cultural: bibliotecas, arquivos e demais acervos, livro e incentivo à leitura”, como é justamente o caso.

A análise deste projeto pelo SNPC/FBN está prevista, também, no item IV, 6.0, letra “c.a” da Instrução Normativa 001/92, exarada pela Secretaria Executiva do Ministério da Cultura e que dispõe sobre os procedimentos de acompanhamento, controle e avaliação a serem adotados na utilização dos benefícios fiscais instituídos pela Lei nº 8.31391.

6 OS 24 DIVULGADORES TEXTUAIS PRÉ-SELECIONADOS (E JÁ COMPROMISSADOS POR ESCRITO) PARA AS APRESENTAÇÕES PREVISTAS NESTE PROJETO

A proponente já pré-selecionou os 24 atores destinados a atuarem como divulgadores textuais nas apresentações dramáticas dos XXIV Cantos da Ilíada de Homero, conforme previsto neste projeto.

Todos os atores, inclusive, já assinaram termos de compromisso (documentos anexos) que provam sua irrestrita disponibilidade para estudarem e apresentarem cada parte do texto, nos dois anos de duração total do projeto.

Ressalte-se que os 24 atores acima referidos – todos de indiscutível renome, alguns com trabalhos em grandes companhias teatrais, no cinema ou em cadeia de televisão – já se encontram compromissados com a sua participação no projeto, haja vista a seriedade de propósitos da proponente e a respeitabilidade pública por esta conquistada com seu histórico de atividades.

A estratégia de ação do projeto ora apresentado (descrita no próximo capítulo) não prevê, adiante-se, a dedicação exclusiva e integral dos 24 atores ao longo de um período total de dois anos. Se esta fosse a fórmula, o projeto seria certamente inexeqüível, seja em função de cachês (a totalidade desses atores tem carreiras profissionais bem definidas, nem todos moram em Curitiba e alguns deles possuem contratos fixos com grandes companhias teatrais, participam de produções cinematográficas ou estão vinculados contratualmente a redes de televisão de SP e do RJ, etc.), seja em função da logística necessária para administrar, por 24 meses, 24 operações distintas, em 9 cidades brasileiras.

Para fins de entendimento deste projeto e melhor contextualização da obra, segue abaixo um resumo sintético dos XXIV Cantos da Ilíada em leituras com os 24 atores participantes:


Canto I: É o décimo ano da guerra de Tróia. Aquiles e Agamémnom se desentendem devido a disputa sobre uma jovem cativa.

Claudete Pereira Jorge – Canto I

Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles
A ira tenaz, que, lutuosa aos Gregos,
Verdes no Orco lançou mil fortes almas,
Corpos de heróis a cães e abutres pasto:


Canto II: Odisseu impede uma revolta e os gregos se preparam para um ataque a Tróia.

Christiane de Macedo – Canto ll

Deuses e campeões a noite os lia;
Só vela o Padre, a ruminar de que arte
Levante Aquiles e escarmente os Gregos.
A Agamêmnon soltar por fim resolve
Um maléfico Sonho, e o chama e apressa:
“Voa, Sonho falaz, do Atrida às popas;
Quanto prescrevo, exato lho anuncia:
Que arme os crinitos Graios e as falanges,
De extensas ruas a cidade expugne”


Canto III: Páris desafia Menelau para um duelo, propondo decidir o destino da guerra. Menelau vence, mas Páris sobrevive, salvo por Afrodite.

Lori Santos – Canto III

Sabei de mim, Dardânios
E Aqueus de fina greva, o que Alexandre
Propõe, da guerra autor. De parte a parte
Largadas no almo chão fulgúreas armas,
Menelau marcial a sós com ele
Dispute Helena; o vencedor aceite
E reconduza a dama e os seus tesouros;
Nós outros aliança e paz firamos.”


Canto IV: O pacto é quebrado pelos troianos e a guerra recomeça.

Lala Scremin – Canto IV

Em consulta com Jove recostados,
Néctar Hebe louçã tempera aos deuses
Na régia de áureo solho, e de áureas taças
Mutuam brindes a atentar em Tróia.


Canto V: Diomedes, ajudado por Palas Atena, realiza prodígios, ferindo Afrodite e Ares.

Luiz Felipe Leprevost – Canto V

A Diomedes robora e esforça Palas,
Para que ele se exalce e em fama cresça.
Indefesso arde-lhe o elmo, arde-lhe o escudo:
Como a estrela outonal que mais cintila
Banhada no Oceano, áscuas de fogo
Da cabeça e dos ombros lhe flamejam.
Ao denso do tumulto o impele a deusa.


Canto VI: Heitor retorna a Tróia para pedir que se tente apaziguar Palas Atena. Encontra-se com esposa e filho e retorna à batalha junto de seu irmão Páris.

Mauro Zanatta – Canto VI – link para página pessoal de Mauro

Sós na lide os mortais, de parte a parte
Ígneo furor aqui e ali se ateia;
Nos dois campos graniza, arremessada
Entre o Símois e o Xanto, ênea procela.
Ajax, da Grécia muro, escala a Tróica
Falange, e livra os seus do Eussório Acamas,
Dos Traces o maior, mais formidável:
Dardo pelo cocar de espessa crina
O osso varou da testa, e em feral treva
Os lumes lhe apagou.


Canto VII: Heitor duela com Ajax. A luta empata, interrompida pela noite.

Helena Portela – Canto VII

Assim, das portas rui Heitor mais Páris,
Ambos a respirar bélico incêndio:
Com tanto anelo festejados foram,
Como o vento que um deus bafeja amigo
Do afã do remo a nautas quebrantados.


Canto VIII: Os deuses se retiram da batalha.

Célia Ribeiro – Canto VIII

Ao desdobrar seu manto a crócea Aurora,
No vértice do Olimpo cumioso
Junta o Fulminador a etérea corte;
Acena, e escutam-no: “O que em mim resolvo,
Celícolas, sabei; nem deus, nem deusa
Renua, mas unânimes concorram
Para os projetos meus cumpridos serem.”


Canto IX: Agamémnom tenta se reconciliar com Aquiles, mas este recusa.

Guta Stresser – Canto IX

Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
Abalo invade, irmão de frio medo;
Agro luto os fortíssimos domina.


Canto X: Diomedes e Odisseu saem em espionagem e atacam o acampamento troiano.

Thais Tedesco – Canto X

Liga os demais a noite em mole sono;
Em claro a passa o rei de tantas gentes,
Gravíssimos cuidados ruminando:
Qual de Juno pulcrícoma o consorte
Lampeja crebro, se aguaceiro ajunta,
Granizo ou neve que embranqueça as lavras,
Ou se abre à guerra amarga as fauces negras.


Canto XI: Páris fere Diomedes, e Pátroclo fica sabendo da desastrosa situação grega.

Chiris Gomes – Canto XI

Surgindo a Aurora do Titônio leito,
O globo e os céus alumiava, quando
Jove a nera Discórdia às naus despede;
A qual da guerra sacudindo o facho,
Parou no centro, na de Ulisses, donde
Em tendas e baixéis ouvida fosse
De Aquiles e de Ajax, que aos dois extremos,
No seu valor seguros, alojavam.

Tupaceretan Matheus – Canto XII


Canto XIII: Poséidon se apieda dos gregos e os motiva.

Katia Horn – Canto XIII – link para página pessoal de Katia

Jove, Heitor já na praia, deixa aos Teucros
A angústia e o peso; aos Traces cavaleiros
Fúlgidos olhos volve, aos Hipomolgos
Glatófagos longevos, aos rompentes
Mísios, Ábios justíssimos dos homens;
Nem pensou que imortal algum viesse
Favorecer a Gregos ou Troianos.


Canto XIV: Hera adormece a Zeus, permitindo a reação grega.

Eliane Campelli – Canto XIV

Entre o beber sentiu Nestor o estrondo:
“Que será, grita, ó nobre Esculapides?
Perto a voz cresce de alentados jovens.
Liba tu roxo vinho, enquanto aquece
A de louras madeixas Hecamede
Banho em que lave da ferida os grumos:
Vou da atalaia examinar o caso.”

Gilda Elisa – Canto XVI


Canto XVI: Pátroclo pede a armadura a Aquiles e permissão para entrar na luta. Aquiles
concede, porém Pátroclo é morto por Heitor.

Richard Rebelo -  Canto XVI – link para página pessoal de Richard

Da nau fervia o prélio, e ao divo Aquiles
Vem Patroclo a verter cálido choro,
Como de celsa rocha em fio brota
Fundo olho d’água.


Canto XVII: Há uma disputa pelo corpo e armadura de Pátroclo. Heitor fica com a
armadura e Ajax com o corpo.

Simone Spoladore – Canto XVII – link para página de Simone no Wikipédia

Menelau, no conflito percebendo
Que jaz Patroclo, a proteger seu corpo
Entre a vanguarda marcha erifulgúreo:
Qual gemente primípara novilha
Meiga cerca o filhinho, o louro Atrida
Pugnaz, de hasta e rodela, ameaça firme
A quem se apropinquar.


Canto XVIII: Aquiles descobre a morte de Pátroclo, e sua mãe providencia uma armadura.

Letícia Guimarães - Canto XVIII – link para página pessoal de Leticia

Arde a peleja, e Antíloco despede.
No já completo a meditar, Aquiles
Ante as naus esporadas suspirava
Dentro em sua alma nobre: “Hui! por que os Dânaos
Turbados pelo campo as naus procuram?”


Canto XIX: Aquiles, de armadura nova e reconciliado com Agamémnom, se junta à guerra.

Zeca Cenovicz – Canto XIX

Do fluente Oceano a crócea Aurora
Surgindo, homens e deuses alumia;
E às naus Tétis baixando, o seu dileto
Em soluços encontra e os companheiros,
Que em torno de Patroclo o lamentavam;
Pega da mão do filho a clara déia:
“Do céu vontade foi; bem que saudosos,
Deixemo-lo em descanso, amado Aquiles.
Tu Vulcânias recebe ínclitas armas,
Quais não coube a varão jamais vesti-las.”


Canto XX: Batalha furiosa, da qual participam livremente os deuses.

Letícia Sabatella – Canto XX – link para página de Letícia no Wikipédia

Enquanto com o herói sedentos Graios
Se armam na frota, e na colina os Teucros,
Do Olimpo sinuoso expede Jove
Têmis, que gira tudo e chama os deuses
À Dial corte: menos o Oceano,
Rio algum não faltou, nem faltou ninfa
Que bosque habite ou fonte ou prado ervoso.


Canto XXI: Aquiles chega aos portões de Tróia

Patrícia Reis Braga – Canto XXI

Da riba entanto se despenha Aquiles;
Mas, qual touro mugindo e a revolver-se,
Túmido o Xanto os apinhados mortos
De si furioso expele, esconde os vivos
Na alva corrente e vórtices profundos,
E o voraz homicida escarcéus turvosCerram,
batem no escudo, os pés lhe embargam.


Canto XXII: Aquiles duela com Heitor e o mata. A seguir, desonra seu cadáver, arrastando-o ao acampamento grego.

Ranieri Gonzalez – Canto XXII

Quê! Deliras, minha alma? Eu suplicante!
Sem mais dó nem resguardo, a mim sem armas,
Qual imbele mulher, há-de imolar-me.
Do rochedo e carvalho não é tempo
De lhe ir falar como donzela e moço,
Quando moço e donzela entre si falam.
Combater, investir: saiba-se, e presto,
A quem o Olímpio agora entrega a palma.”


Canto XXIII: Pátroclo é velado adequadamente.

Marly Gott – Canto XXIII

Gemia a grã cidade, e pelas praias
Do alto Helesponto às naus se encaminhavam.
Sem dispersar os Mirmidões, Aquiles:
“Équites caros, disse, os corredores
Não soltemos; de coche, ao morto vamos
O tributo de lágrimas pagar-lhe.
Assim que em ais ali desafogarmos,
Desatem-se os cavalos e ceemos.”


Canto XXIV: Príamo pede o cadáver do filho a Aquiles que, comovido, cede. Heitor é devidamente velado em Tróia.

Andressa Medeiros – Canto XXIV

Findo o certame, às naus dispersos correm;
Cuidam na ceia, em brando sono pegam.
Reluta à quietação, que enleia a todos,
O Pelides saudoso a revolver-se,
Ou supino, ou de bruços, ou de ilharga;
Lembra-lhe a valentia, o ardor daquele
Com quem tanto empreendeu, curtiu fadigas,
Em duro marte, em perigosos mares,

6.1 ORGANOGRAMAS FUNCIONAIS DO PROJETO

A direção geral desta equipe de atores será de responsabilidade de Octávio Camargo, responsável pela gênese, concepção e idealização da Companhia Iliadahomero de Teatro (e deste projeto) como um todo e pela tutela dos trabalhos da companhia, em suas etapas embrionárias e ao longo dos últimos nove anos.

Adicionalmente, concebeu-se como premissa metodológica de formação da equipe completa de atores, que quatro dos 24 atores – os mais experientes e antigos na pesquisa do texto – além de apresentarem, de forma itinerante, seus respectivos Cantos, atuarão, simultaneamente, como assistentes de direção de Octávio Camargo, sendo também responsáveis pela formação dos 20 demais atores como divulgadores textuais da Ilíada de Homero.

As contrapartidas do projeto, ao cabo de sua realização, terão sido:

Implementação de política de incentivo à leitura de uma obra clássica da literatura em 9 estados brasileiros, nas bibliotecas públicas integrantes do SNBP, com inquestionáveis ganhos para o interesse público e para a instituição parceira (SNBP).

Pioneira apresentação dramática da Ilíada, em sua versão completa e em português (traduzida por um brasileiro), em 216 apresentações, para público estimado de 30 mil pessoas, em dois anos.

Formação destas 30 mil pessoas como agentes reverbadores e disseminadores desta obra literária.

Criação e manutenção, por dois anos, de poderoso veículo cultural extracurricular para
professores e escolas das 9 cidades, integrando tais profissionais e escolas com a biblioteca, ao redor desta obra, possibilitando obras derivadas (pesquisas escolares, discussões, debates, etc.)

Impressão e distribuição, ao longo de dois anos de 720.000 jornais (8 tiragens trimestrais de 90.000 exemplares cada) da Ilíada de Homero, na tradução de Odorico Mendes (texto em domínio público, mas esgotado no mercado editorial), as quais, se colecionados os fascículos (cada qual contendo os 3 cantos do trimestre), formarão 90.000 Ilíadas completas (24 Cantos), livremente distribuídas ao público participante e aos usuários das bibliotecas.

Contrapartida indiscutível para as empresas que, mediante lei de incentivo, viabilizarem
a promoção desta política de incentivo à leitura de texto clássico da literatura, apresentado em nove cidades brasileiras por atores de relevância e renome nacionais. Associação direta de suas marcas e de suas imagens em milhares de jornais (contendo a obra completa), postais de divulgação (que poderão circular pelo correio), cartazes, Internet, jornais e em documentação audiovisual final.

Possibilidade de edição da documentação audiovisual (fotografia e vídeo) para formação de acervos das bibliotecas e videotecas integrantes do SNBP (todas as do Brasil, não apenas as participantes do projeto). Exemplo: Coleção completa de DVD´s da Ilíada de Homero em apresentações dramáticas, em português, para acessibilidade da obra por portadores de necessidades especiais, inclusive cegos ou pessoas impedidas de ler livros em razão de dificuldades de locomoção.

CONCLUSÃO

Com confiança na sua plena seriedade (fruto de nove anos de boas experiências acumuladas pela proponente), apresenta-se, portanto, em singelas pinceladas, o plano de trabalho do projeto bianual de apresentações itinerantes, nas bibliotecas públicas de nove capitais brasileiras, da Ilíada de Homero na tradução de Odorico Mendes.

Este projeto será apresentado ao PRONAC subseqüentemente à avaliação preliminar de sua viabilidade e possibilidade pelo SNBP-FBN (enquanto entidade supervisionada), para posterior captação de recursos pela Lei Rouanet.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL E ARTÍSTICA ILÍADAHOMERO
& COMPANHIA ILÍADAHOMERO DE TEATRO


Busto com as feições presumidas de Homero.

06
jun
09

semana de letras da ufpr – patricia reis braga – canto xxii – universidade federal do paraná – centro de filosofia, ciências e letras – 29/05/09

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Edifício histórico da UFPR, visto a partir do 12 andar do edificio D. Pedro I – Reitoria – Curitiba.

O encerramento da Semana de Letras da UFPR contou com a apresentação do Canto XXII da Ilíada por Patricia Reis Braga.  A performance aconteceu no Anfiteatro do Setor de Letras Vernáculas no 11 andar do Edificio D. Pedro I da Reitoria.

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Alessandro Rolim de Moura, doutor em letras clássicas pela Universidade de Oxford  e professor de literatura grega e latina na UFPR, fez uma breve introdução ao Canto XXII apresentando uma sinopse dos principais momentos da narrativa.

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Apesar das súplicas de Príamo e Hécuba para que não enfrentasse Aquiles e retornasse para dentro dos muros da cidade, o herói troiano, movido por brio e coragem, decide não se esquivar ao combate e parte em direção à morte.

“Heitor, que fazes?
Sem auxílio a tal monstro não te oponhas;
Longe em forças te excede, e vai matar-te.
Oh! Quanto a mim fosse ele aos deuses grato,
Que, sendo em breve a cães e abutres cevo,
Este meu coração consolaria!
Trucidando ou vendendo em longes terras
Filhos tantos e tais, privou-me deles;
Nem Licaon enxergo e Polidoro,
Que Laotoe me pariu formosa e casta:
Se estão nos arraiais, com ouro e bronze,
De Altes famoso à filha inteiro dote,
Os remiremos; se a Plutão baixaram,
Dor é minha e da mãe que os procriamos;
Será breve a do povo, se de Aquiles
Não te prostra o furor. Entra, meu filho,
Não lhe dês glória tanta; para esteio
De Tróia te reserva e das Troianas.
Pena há de mim que, são de mente ainda,
Sinto no cabo da velhice males
Por Jove amontoados: filhos mortos,
Filhas cativas, tálamos corruptos,
No tropel a esmagarem-se crianças,
Noras de rojo em brutas mãos profanas,
Quiçá, de alma arrancada a brônzeo fio,
Cães ao portal em peças me devorem,
Guardas que à minha mesa eu nutri mesmo,
E em meu sangue apagando a raiva e a gana,
Se espojem no vestíbulo! Em batalha
Jazendo um moço, lhe aparece tudo
Nédio e composto; mas, defunto um velho,
Já de cabeça branca e branca barba,
De vergonhas à mostra, o lacerarem
Torpes cães… Oh! Miséria das misérias!”

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O drama narrado pela Iliada chega à seus momentos finais neste canto: O combate entre Aquiles e Heitor cifra o desfecho da guerra de Tróia. Após correr três vezes ao redor dos muros da cidade, Heitor decide enfrentar Aquiles com o apoio de seu irmão Deifobo. Palas Atenas, no entanto, o enganara, assumindo as formas do irmão e desaparecendo no momento crucial da luta. Aquiles mata Heitor e recusa-se a entregar o corpo aos troianos.

“Ai! Se entro agora,
Mo exprobrará primeiro Polidamas,
Que a recolher a gente aconselhou-me,
A noite em que aziago alçou-se Aquiles.
Fora melhor; a pertinácia minha
Danou do povo a causa! Os nossos temo
E as Troianas de peplos roçagantes;
Ouço em roda: – Ei-lo Heitor, que temerário
O exército perdeu! – Di-lo-ão por certo.
Mais vale ou triunfar do imano Aquiles,
Ou morrer pela pátria em luta honrosa.
E se elmo e escudo e lança ao muro encosto,
E indo encontrá-lo, dar prometo Helena,
Motivo desta guerra, e o que Alexandre
Nos trouxe em cavas naus, para os Atridas,
Para os outros Aqueus o que Ílio encerra;
Que de ancião com firmeza os Teucros jurem
Nada ocultar, e dividir ao meio
Quanta riqueza esconde a grã cidade…
Quê! Deliras, minha alma? Eu suplicante!
Sem mais dó nem resguardo, a mim sem armas,
Qual imbele mulher, há-de imolar-me.
Do rochedo e carvalho não é tempo
De lhe ir falar como donzela e moço,
Quando moço e donzela entre si falam.
Combater, investir: saiba-se, e presto,
A quem o Olímpio agora entrega a palma.”

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Andrômaca, vendo Heitor morto em frente às muralhas troianas, chora a perda do marido, e desespera-se ao vislumbrar o futuro de seu filho Astiánax.

“Heitor, ai! Triste,
Com fado igual nascemos, tu nos paços
Do rei Príamo em Tróia, eu na Tebana
Hipóplaco selvosa, onde criou-me
De menina Eetion para infortúnios,
E antes me não gerasse! Ora ao subtérreo
Orco desces profundo, e em luto e nojo
No viúvo aposento me abandonas;
Nem do nosso filhinho és mais o arrimo,
Nem ele o teu será. Da crua guerra
A escapar, não se escapa à desventura;
Mudado o marco, o esbulharão do prédio.
O pupilo no dia da orfandade
Perde os jovens amigos: baixo o rosto,
Água nos olhos, se o do pai segura,
Um pela túnica, outro pela capa,
Indigente é repulso; o mais piedoso
Bebida num copinho lhe escanceia,
Que os beiços banha e o paladar não molha.
O que possui os genitores ambos,
Fero da mesa o expulsa, espanca e enxota:
-Sai, conosco teu pai já não convive. -
Tal há-de vir choroso à mãe viúva
O infante meu, que aos paternais joelhos
Com tutanos de ovelha se nutria,
E lasso de brincar, entregue ao sono,
Da nutriz afagado ao brando colo,
Contente em mole berço adormecia.
Órfão, misérias sofrerá meu filho,
Que Astianax os nossos denominam,
Porque eras, nobre Heitor, único apoio
Destas muralhas. Ante as naus rostradas,
Longe dos pais, hão-de roer-te vermes,
Depois que nu te comam cães raivosos,
A ti, que hás finas e elegantes vestes,
Por tuas servas e por mim tecidas.
Já que para a mortalha nem te servem,
Em honra tua ao fogo vou queimá-las,
Dos Teucros em presença e das Troianas.”

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O canto encerra com tristeza e luto geral dos troianos pela perda de seu maior herói e principal defensor.

“As mulheres ao pranto ecos faziam.”

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Fotos: Gilson Camargo

15
mai
09

dia internacional dos museus – richard rebelo – canto XVI – museu da república / rio de janeiro

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No teto do Palacio do Catete, decorado em estilo neoclássico, a representação do encontro dos Deuses no Olimpo, com Apolo ao centro.

O Museu da República abriu excepcionalmente nesta segunda-feira, dia 18 de maio, para a apresentação do Canto XVI da Ilíada de Homero na tradução de Manuel Odorico Mendes, no dia Internacional dos Museus. A performance teatral com o ator Richard Rebelo aconteceu no Salão Nobre do museu, às 20h.

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O projeto Homero nos Museus está sendo realizado em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, mandato do deputado federal Angelo Vanhoni e Associação Cultural e Artística Iliadahomero. O objetivo é difundir os valores da cultura oral e sua força transformadora da sociedade, estimulando a leitura dos textos clássicos e facilitando o acesso às matrizes literárias do Ocidente. A tradição da poesia épica grega sobreviveu graças à oralidade e as apresentações dos rapsodos até que pudesse ser finalmente escrita ou compilada por Homero no séc. VII antes de Cristo. Esta “contação de histórias” foi responsável pela transmissão dos valores fundamentais da cultura ocidental e permanece viva até hoje. Nas palavras de Platão “Homero educou a Grécia” podemos perceber a importância atribuída à narrativa oral pelos iminentes filósofos gregos já no século V a.C. Da mesma forma os contadores de histórias da atualidade exercem um importante papel no desenvolvimento do imaginário coletivo.

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O Salão Nobre do Palácio do Catete relembra a vida social e o luxo da corte brasileira no século XIX. Nele eram realizadas as principais recepções do palácio. As pinturas verticais representam cenas mitológicas associadas à música e às artes, e, na parte superior das paredes, pinturas em semicírculo referem-se à vida de Apolo, deus da música e da poesia.

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As cenas das batalhas entre gregos e troianos são visualmente descritas pela movimentação do ator, que através de gestos ilustra coreograficamente os combates, emprestando vivacidade ao texto e tornando a compreensão da narrativa acessível a um público maior.

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O Canto XVI da Ilíada narra as aventuras de Patroclo, herói grego e principal líder dos Mirmidões (gregos), depois de Aquiles. A morte de Patroclo, no final do canto, acarretará no retorno de Aquiles ao campo de batalha e a subsequente vitória dos gregos sobre os troianos.

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Na platéia, da esquerda para a direita: Mário Chagas, Letícia Sabatella, José Nascimento Junior e Eneida Braga.

A apresentação de Richard Rebelo aconteceu uma semana após o nascimento do Instituto Brasileiro de Museus. O IBRAM substitui o antigo Departamento de Museus, desvinculando-se do IPHAN. O Instituto tem por objetivo formular políticas culturais para todos os museus brasileiros - não apenas os federais - melhorar os serviços do setor, aumentar a visitação e arrecadação dos mesmos, fomentar políticas de aquisição e preservação dos acervos e criar ações integradas entre os museus brasileiros.

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Mario de Souza Chagas (diretor do Departamento de Processos Museais – IBRAM) cumprimenta o ator Richard Rebelo ao final da apresentação. Ao fundo o atual presidente do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM, José Nascimento Junior.

O evento se insere também na  programação da VII Semana Nacional de Museus que ocorre entre os dias 17 e 23 de maio na cidade do Rio de Janeiro. A semana conta ainda com diversas atividades: palestras, visitas monitoradas gratuitas, seminários, projeções de filmes, espetáculos teatrais e oficinas.

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A diretora do Museu da República, Magaly Cabral (ao centro) expressou o desejo de realizar o ciclo completo de apresentações dos 24 Cantos da Ilíada no Salão Nobre do palácio, a partir de 2010, com duas apresentações mensais. O projeto visa dinamizar a visitação do museu e realçar, através da publicação de um catálogo, a iconografia presente nas diversas salas do Palácio do Catete, que em sua maioria ilustram cenas da mitologia greco-romana em seus afrescos, pinturas e esculturas.

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Fotos: Gilson Camargo

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14
mai
09

a paramenta – paula villa nova costa

“a paramenta”.!

Sim! Surgiu da boca do amigo Lori Santos a expressão que norteou o processo de criação do elemento plástico, solicitado pelo SESC Pompéia, para a leitura do canto III da Ilíada de Homero.

Lori sempre foi um incentivador da minha arte, mal sabe ele.! Receber assim, este convite a desenvolver um aparato criativo para sua odisséia homérica, me pareceu vindo das alturas. Trabalhar com pessoas que admiramos e respeitamos é acima de tudo uma evolução de vida!

Foram dez dias maravilhosos na companhia de bons amigos, regados a vinho, muitas discussões e indagações a respeito da necessidade de haver o aparato para a leitura, já que na concepção do idealizador Octavio Camargo os Aedos jamais deveriam estar figurados e sim naturalmente trajados, como de costume.

A função da leitura, no meu ponto de vista, é trazer ao espectador uma consciência da contemporaneidade da linguagem de Homero nos tempos atuais. Como disse o Lori “depois de 2500 anos, homero é um “velhinho Hiteck” e minha missão foi concatenar as informações vindas do lori e do Octavio, e transformar aquilo que seria tradicionalmente um figurino num aparato plástico, que não apenas serviria para as apresentações em espaços culturais mas também em lugares públicos, como a Praça da Sé em São Paulo.

A Paramenta deveria ser facilmente notada, considerando um ambiente público, onde o apelo visual a priore é o mote para dar sequência a leitura inebriante da Ilíada. De fácil manuseio e capaz de chamar a atenção sem espalhafato, transeuntes urbanos, cidadãos comuns que naquele breve momento serão levadas a outro universo, através dos cantos de um Aedo moderno, retomando uma pratica antiga de preservação da história e levando ao público a possibilidade do conhecimento da obra de homero.

Paula Villa Nova Costa

01
abr
09

guta stresser e thais tedesco (cantos ix e x)

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Guta Stresser – Canto IX

Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
Abalo invade, irmão de frio medo;
Agro luto os fortíssimos domina.
Qual da Trácia a roncar Zéfiro e Bóreas,
Incha a piscoso ponto, e escarcéu turvo
Em monte arqueia e de alga inunda as praias;
Tal borrasca aos Aqueus revolve o seio.
Chagado n’alma o Atrida, arautos manda
Convocar em segredo a flor dos sócios,
E ele alguns sem estrépito procura.
Mal abanca o tristonho juntamento,
Ergue-se, e como de árdua penha brota
Negro olho d’água, em fio lagrimando,
Fundo suspira: “Príncipes e amigos,
Enredou-me o Satúrnio em lance infesto!anto
Depois de Ílio assolada, e quer arteiro
Que, perdido o meu povo, inglório volte?

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Thais Tedesco – Canto X

Liga os demais a noite em mole sono;
Em claro a passa o rei de tantas gentes,
Gravíssimos cuidados ruminando:
Qual de Juno pulcrícoma o consorte
Lampeja crebro, se aguaceiro ajunta,
Granizo ou neve que embranqueça as lavras,
Ou se abre à guerra amarga as fauces negras;
Tal suspira, e as entranhas lhe estremecem.
Turbado considera em cerco de Ílio
Os muitos fogos, o rumor dos homens,
Das tíbias e trombetas; mas, se atenta
O Aquivo exército e as silentes praias,
Aos Céus queixando-se os cabelos carpe,
No íntimo geme o coração brioso.
Melhor enfim parece-lhe ao Nelides
Ir consultivo e combinar com ele
Como os Dânaos defenda.

Fotos: Gilson Camargo

10
mar
09

reunião com alfredo manevy – ministro interino da cultura

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O projeto Homero nas Bibliotecas foi apresentado ao ministro interino da Cultura Alfredo Manevy por iniciativa do deputado federal Angelo Vanhoni e da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura. A reunião pautava estratégias de ampliação da interface entre as politicas culturais do Ministério da Cultura (MinC) e o estado do Paraná.

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Estavam presentes na reunião: Carlos Alberto Vieira Filho, chefe de gabinete do MinC, Paulo Brum, assessor especial do ministro da Cultura, Sandro Machado, assessor parlamentar, o fotógrafo Kleber Fragoso, a jornalista e assessora de imprensa da casa Patricia Saldanha e Octavio Camargo, diretor da Associação Cultural e Artistica Iliadahomero.

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Após as considerações iniciais do deputado Angelo Vanhoni, foi exibido o documentário em vídeo com depoimentos dos 24 atores que integram a Cia Iliadahomero de Teatro. O audiovisual foi produzido para a apresentação do projeto junto ao Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) no ùltimo simpósio promovido pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN) em outubro de 2008.

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Octavio Camargo apresentou ao ministro a recente publicação da Iliada na tradução de Odorico Mendes (Ateliê/Unicamp), salientando que a revisão e as notas ao texto na edição preparada por Salvio Nienkötter auxiliam em muito à compreensão da obra. O projeto Homero nas Bibliotecas prevê a publicação em formato jornal de 90 mil exemplares da Iliada em texto integral, a serem distribuídas durante os 2 anos de itineração dos atores pelas 9 capitais brasileiras selecionadas para sediarem as apresentações.

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Ao perceberem que tratava-se de importante estímulo a uma política nacional de incentivo à “loucura” leitura, Manevy e Camargo riem do ato falho e abre-se a discussão para as questões de encaminhamento técnico e custos orçamentários.

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O ministro expressou entusiasmo com a possibilidade de itineração dos monólogos pelas bilbiotecas do SNBP e buscou indicar caminhos para a participação do MinC em sua viabilização. Além dos mecanismos de isenção fiscal que podem ser propiciados pela lei de mecenato – PRONAC, cogitou-se a inclusão, ainda que parcial, do projeto no Fundo Nacional de Cultura (FNC).

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A análise desta perspectiva e de outras vias de fomento para o projeto Homero nas Bibliotecas está sob responsabilidade do chefe de gabinete do MinC, Carlos Vieira, que indicará os proximos encaminhamentos.

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O deputado Angelo Vanhoni reiterou a importância da inclusão do projeto no FNC, lembrando que a participação direta do Ministério no projeto, mesmo que escalonada e parcial, ajudará em muito na captação dos recursos complementares via PRONAC.

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Aguardando pronunciamento sobre as questões suscitadas pela reunião, o diretor da Associação Cultural e Artistica Iliadahomero reflete sobre os encontros agendados para o dia seguinte em Brasilia. Em pauta estavam reuniões com o coordenador estadual de bibliotecas do Distrito Federal, Cassemiro Souza, e a gerente de articulação institucional e fomento do Departamento de Museus e Centros Culturais do Iphan, Eneida Braga Rocha de Lemos.

Fotos: Gilson Camargo

10
mar
09

biblioteca leonel de moura brizola – bnb – biblioteca nacional de brasília

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fotos: Gilson Camargo





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