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semana de letras da ufpr – patricia reis braga – canto xxii – universidade federal do paraná – centro de filosofia, ciências e letras – 29/05/09

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Edifício histórico da UFPR, visto a partir do 12 andar do edificio D. Pedro I – Reitoria – Curitiba.

O encerramento da Semana de Letras da UFPR contou com a apresentação do Canto XXII da Ilíada por Patricia Reis Braga.  A performance aconteceu no Anfiteatro do Setor de Letras Vernáculas no 11 andar do Edificio D. Pedro I da Reitoria.

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Alessandro Rolim de Moura, doutor em letras clássicas pela Universidade de Oxford  e professor de literatura grega e latina na UFPR, fez uma breve introdução ao Canto XXII apresentando uma sinopse dos principais momentos da narrativa.

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Apesar das súplicas de Príamo e Hécuba para que não enfrentasse Aquiles e retornasse para dentro dos muros da cidade, o herói troiano, movido por brio e coragem, decide não se esquivar ao combate e parte em direção à morte.

“Heitor, que fazes?
Sem auxílio a tal monstro não te oponhas;
Longe em forças te excede, e vai matar-te.
Oh! Quanto a mim fosse ele aos deuses grato,
Que, sendo em breve a cães e abutres cevo,
Este meu coração consolaria!
Trucidando ou vendendo em longes terras
Filhos tantos e tais, privou-me deles;
Nem Licaon enxergo e Polidoro,
Que Laotoe me pariu formosa e casta:
Se estão nos arraiais, com ouro e bronze,
De Altes famoso à filha inteiro dote,
Os remiremos; se a Plutão baixaram,
Dor é minha e da mãe que os procriamos;
Será breve a do povo, se de Aquiles
Não te prostra o furor. Entra, meu filho,
Não lhe dês glória tanta; para esteio
De Tróia te reserva e das Troianas.
Pena há de mim que, são de mente ainda,
Sinto no cabo da velhice males
Por Jove amontoados: filhos mortos,
Filhas cativas, tálamos corruptos,
No tropel a esmagarem-se crianças,
Noras de rojo em brutas mãos profanas,
Quiçá, de alma arrancada a brônzeo fio,
Cães ao portal em peças me devorem,
Guardas que à minha mesa eu nutri mesmo,
E em meu sangue apagando a raiva e a gana,
Se espojem no vestíbulo! Em batalha
Jazendo um moço, lhe aparece tudo
Nédio e composto; mas, defunto um velho,
Já de cabeça branca e branca barba,
De vergonhas à mostra, o lacerarem
Torpes cães… Oh! Miséria das misérias!”

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O drama narrado pela Iliada chega à seus momentos finais neste canto: O combate entre Aquiles e Heitor cifra o desfecho da guerra de Tróia. Após correr três vezes ao redor dos muros da cidade, Heitor decide enfrentar Aquiles com o apoio de seu irmão Deifobo. Palas Atenas, no entanto, o enganara, assumindo as formas do irmão e desaparecendo no momento crucial da luta. Aquiles mata Heitor e recusa-se a entregar o corpo aos troianos.

“Ai! Se entro agora,
Mo exprobrará primeiro Polidamas,
Que a recolher a gente aconselhou-me,
A noite em que aziago alçou-se Aquiles.
Fora melhor; a pertinácia minha
Danou do povo a causa! Os nossos temo
E as Troianas de peplos roçagantes;
Ouço em roda: – Ei-lo Heitor, que temerário
O exército perdeu! – Di-lo-ão por certo.
Mais vale ou triunfar do imano Aquiles,
Ou morrer pela pátria em luta honrosa.
E se elmo e escudo e lança ao muro encosto,
E indo encontrá-lo, dar prometo Helena,
Motivo desta guerra, e o que Alexandre
Nos trouxe em cavas naus, para os Atridas,
Para os outros Aqueus o que Ílio encerra;
Que de ancião com firmeza os Teucros jurem
Nada ocultar, e dividir ao meio
Quanta riqueza esconde a grã cidade…
Quê! Deliras, minha alma? Eu suplicante!
Sem mais dó nem resguardo, a mim sem armas,
Qual imbele mulher, há-de imolar-me.
Do rochedo e carvalho não é tempo
De lhe ir falar como donzela e moço,
Quando moço e donzela entre si falam.
Combater, investir: saiba-se, e presto,
A quem o Olímpio agora entrega a palma.”

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Andrômaca, vendo Heitor morto em frente às muralhas troianas, chora a perda do marido, e desespera-se ao vislumbrar o futuro de seu filho Astiánax.

“Heitor, ai! Triste,
Com fado igual nascemos, tu nos paços
Do rei Príamo em Tróia, eu na Tebana
Hipóplaco selvosa, onde criou-me
De menina Eetion para infortúnios,
E antes me não gerasse! Ora ao subtérreo
Orco desces profundo, e em luto e nojo
No viúvo aposento me abandonas;
Nem do nosso filhinho és mais o arrimo,
Nem ele o teu será. Da crua guerra
A escapar, não se escapa à desventura;
Mudado o marco, o esbulharão do prédio.
O pupilo no dia da orfandade
Perde os jovens amigos: baixo o rosto,
Água nos olhos, se o do pai segura,
Um pela túnica, outro pela capa,
Indigente é repulso; o mais piedoso
Bebida num copinho lhe escanceia,
Que os beiços banha e o paladar não molha.
O que possui os genitores ambos,
Fero da mesa o expulsa, espanca e enxota:
-Sai, conosco teu pai já não convive. -
Tal há-de vir choroso à mãe viúva
O infante meu, que aos paternais joelhos
Com tutanos de ovelha se nutria,
E lasso de brincar, entregue ao sono,
Da nutriz afagado ao brando colo,
Contente em mole berço adormecia.
Órfão, misérias sofrerá meu filho,
Que Astianax os nossos denominam,
Porque eras, nobre Heitor, único apoio
Destas muralhas. Ante as naus rostradas,
Longe dos pais, hão-de roer-te vermes,
Depois que nu te comam cães raivosos,
A ti, que hás finas e elegantes vestes,
Por tuas servas e por mim tecidas.
Já que para a mortalha nem te servem,
Em honra tua ao fogo vou queimá-las,
Dos Teucros em presença e das Troianas.”

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O canto encerra com tristeza e luto geral dos troianos pela perda de seu maior herói e principal defensor.

“As mulheres ao pranto ecos faziam.”

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Fotos: Gilson Camargo