Ilíada, Canto 13 – Katia Horn – Mostra DocumentaCena

DE BRAÇOS COM HOMERO

Primeiro dia da 1ª Mostra DocumentaCena, em Curitiba. Apresentação e conversa sobre o espetáculo Ilíada – Canto XIII, com Katia Horn, da Ilíadahomero Companhia de Teatro, dirigida por Octavio Camargo.

Por Ivana Moura – https://idiomasforum.wordpress.com/2016/11/10/de-bracos-com-homero/
Fotos: Gilson Camargo

Pensar a crítica teatral pode ser um ato de escuta, no sentido psicanalítico do termo – de se abrir para revelações que possibilitem feixes de leituras interpretativas. Uma disposição para o diálogo com a obra e seus artistas e para a construção de sentidos nas frestas dessas interações ocorre na 1ª Mostra DocumentaCena – o “esquenta” do IDIOMAS – Fórum Ibero-Americano de Crítica de Teatro, promovido pela CAIXA Cultural Curitiba. O evento, que começou ontem (8/11), gratuito, é composto por três espetáculos curitibanos de diferentes linguagens e gerações – Ilíada – Canto XIII, Os Pálidos, e A Maldita Raça Humana –, uma oficina de crítica e dramaturgia, além de lançamentos de publicações de teatro.

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Na plateia do Teatro Sesi Portão, críticos do Uruguai (María Esther Burgueño, Bernardo Borkenztain), de Portugal (Rui Pina Coelho, Jorge Louraço), Espanha (Óscar Cornago) e do Brasil (Mariana Barcelos, Daniele Avila Small, Valmir Santos, Francisco Mallmann, Marco Vasquez, Ivana Moura) acompanhavam um dos episódios dessa empreitada verdadeiramente homérica assumida pela Ilíadahomero Companhia de Teatro e pelo diretor Octavio Camargo. Ilíada – Canto XIII, na tradução de Manoel Odorico Mendes, com a atriz Katia Horn.

A Ilíada é o poema épico grego que narra os acontecimentos ocorridos em um período de pouco mais de 50 dias, durante o último ano (1720 A.C.) da Guerra de Tróia, que durou uma década. O rapto de Helena, mulher de Menelau, feito por Páris, um dos filhos de Príamo, rei de Tróia, foi o detonador do conflito. Composta por 15.693 versos em hexâmetro datílico, a obra mistura dialetos, derivando numa língua literária artificial, que provavelmente nunca foi falada na Grécia.

Encetado em 1999, o projeto Ilíadahomero perseguiu montar na íntegra os 24 cantos da Ilíada, de Homero, com 24 atores, um por cada canto. Ganhou apresentações esporádicas e isoladas. Ainda incompleto, esteve no Fringe, a mostra paralela do Festival de Curitiba, em 2015. Neste ano, o poema épico da cultura clássica que inaugura a literatura ocidental foi exibido na íntegra na mostra principal do festival de Curitiba.

Foram 12 cantos por sessão, durante dois dias, do meio‐dia à meia‐noite, no Memorial de Curitiba. Participaram os atores Claudete Pereira Jorge, Christiane de Macedo, Lourinelson Vladmir, Lala Scremin, Rosana Stavis, Mauro Zanatta, Helena Portela, Celia Ribeiro, Guta Stresser, Fernando Alves Pinto, Chiris Gomes, Maureen Miranda, Katia Horn, Eliane Campelli, Regina Bastos, Richard Rebelo, Adriano Petermann, Letícia Guimarães, Zeca Cenovicz, Letícia Sabatella, Ranieri Gonzalez, Patricia Reis Braga, Marly Gott e Andressa Medeiros.

No Canto 13, a tropa grega apanha dos troianos. Netuno aparece para elevar o moral do lado grego e chega disfarçado de Calcas Testórides, o profeta. Isso ocorre porque no Canto 8 Júpiter tinha proibido que qualquer deus participasse diretamente do conflito. Embora o próprio Júpiter estivesse do lado dos troianos e Netuno interfira pelos gregos. O deus do mar desperta a coragem dos dois Ajax e dos outros combatentes.

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Essas informações são passadas pelo diretor Octavio Camargo antes de cada apresentação, numa linguagem coloquial e salpicada de humor, uma sinopse do enredo. O estudioso da obra de Homero faz até conexões com a política atual. Na ocasião do debate, ele esclareceu que considera essa mediação necessária apenas nas récitas dos cantos feitas isoladamente: o rito completo dá conta da mediação.

Camargo busca com seu projeto fazer com que a poesia de Homero ganhe novamente uma familiaridade, fique próxima das pessoas. A tradução de Manoel Odorico Mendes (1799-1864), não é um facilitador. Mas também não é isso que pretende o encenador.

Octavio leva ao palco a tradução do original na íntegra e investe na radicalidade da malha complexa da poesia. Esse seu plano para reconduzir Homero em sua plenitude ao teatro é defendido como um estímulo à leitura. “A maior forma de conhecimento é oral. Então buscamos o protagonismo que a oralidade deveria exercer na educação”, argumenta.

A iluminação é assinada por Beto Bruel, que traça a fisionomia das vozes de heróis, deuses, semideuses e mortais. Além de caracterizar as mudanças nas descrições das batalhas e das almas que tombam. E enfatizar as passagens entre narração e diálogo. A execução de luz é de Daniele Regis, o figurino de Alexandre Linhares, e a documentação de Gilson Camargo.

Katia Horn extrai potência de uma cena minimalista. E trabalha com as alternâncias de ritmos na elocução. Palavras e silêncios formam a música do texto. A atriz fez sua oitava récita do texto “odoriquês” e garante que é uma experiência magnífica de crescimento e possibilidades como intérprete e ser humano. Katia assume o papel de rapsodo homerista. Entre os gregos, o rapsodo era o ator dos poemas épicos, que exercia todos os papéis e também descrevia, explicava e comentava as passagens. Um dos mais famosos rapsodos foi Íon, citado por Platão.

“Não tentamos fazer o resgate arqueológico de como era feito o teatro, mas trazemos à luz dos recursos do teatro moderno e da contemporaneidade esse texto que é dos primórdios do teatro”. O diretor esclareceu que as escavações funcionam na perspectiva de empreender o repertório contemporâneo do ator.

No centro há defensores,
Os dois Ajax e o nosso archeiro
Teucro, inda a pé galhardo; e, bem que estrênuo
Seja Heitor, formidando e impetuoso,
Muito árduo lhe será vencer tais braços
E as naus incendiar, salvo se às popas
Darde o mesmo Satúrnio ardente facho:
Não temas que se dobre o Telamônio
A mortal que de Ceres coma os frutos,
A bronze violável e a penedos:
Nem ao rompe esquadrões sem-par Aquiles,
Com quem se mede, exceto na carreira.
Marchemos à sinistra, a ver em breve
Se a glória será nossa ou do inimigo.

Os críticos investigaram algumas questões da peça como as metáforas das relações astronômicas que estão no texto explícita ou implicitamente, os procedimentos da construção da presença do ator na enunciação dos cantos e as ambições do projeto. “Só conhecemos iniciativa anterior de mostrar fragmentos, mas nenhuma com texto integral. Portanto, creio que é um projeto inédito mundialmente”, explicita Camargo.

No seu atual papel social, o crítico abdica da função de guia para o consumidor de cultura e se torna um parceiro do artista na árdua tarefa de perscrutar os sentidos e seus contextos. Sobre essas funções do crítico e uma análise do projeto Ilíadahomero, pode ser lido na revista eletrônica Questão de Crítica – http://www.questaodecritica.com.br/2015/08/iliadahomero/ o artigo de Patrick Pessoa, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF), dramaturgo e crítico integrante da DocumentaCena.

Saiba mais:
Ilíada, de Homero, em verso português por Manoel Odorico Mendes: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/iliadap.pdf
Ilíada, Canto 13 – Katia Horn: https://iliadahomero.wordpress.com/2014/10/03/iliada-canto-13-katia-horn-teatro-londrina-memorial-de-curitiba/

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