Ilíada, Canto 16 – Richard Rebelo – Câmara Municipal de Curitiba

Câmara Municipal de Curitiba promove interpretação da Ilíada, de Homero.

Pela primeira vez na sua história, o Palácio Rio Branco, edifício construído no século XIX, sede da Câmara Municipal de Curitiba, recebeu na quinta-feira (6/4) a interpretação do poema épico grego Ilíada, de autoria atribuída a Homero, como parte das comemorações do 324º aniversário da cidade. O ator Richard Rebelo, da Cia Iliadahomero de Teatro, interpretou o canto 16, que narra o momento em que Pátroclo pede a armadura, as armas e a permissão de Aquiles para entrar na luta contra os troianos. Aquiles concede, porém Pátroclo acaba morto por Heitor.

O projeto é baseado na obra de Homero traduzida para o português por Manoel Odorico Mendes (1799 – 1864), poeta, escritor e político – que foi deputado da primeira Assembleia Geral Legislativa do Brasil.

A apresentação segue a oralidade das narrativas dos iminentes filósofos gregos. “A tradição da poesia épica grega sobreviveu graças à oralidade e as apresentações dos rapsodos até que pudesse ser finalmente escrita ou compilada por Homero no século VII antes de Cristo”, lembra Octavio Camargo, diretor da Cia. Iliadahomero.

A Ilíada, composta por 15.693 versos de diferentes dialetos, conta a guerra de Tróia, que começa com o sequestro de Helena por Páris, príncipe de Tróia. Helena era a esposa de Menelau, o rei de Esparta, uma das principais cidades-Estado da Grécia.

“Surpreendente”: público elogia Ilíada no Palácio Rio Branco

Passava das 19h30 quando o ator Richard Rebelo entrou no Palácio Rio Branco, nesta quinta-feira (6), para declamar o Canto 16 da Ilíada. “Minha expectativa? Casa cheia!”, disse ele à reportagem. Com 50 pessoas no plenário da Câmara Municipal de Curitiba, o desejo foi atendido. Tanto as 38 posições ocupadas normalmente pelos vereadores da cidade, quanto as cadeiras destinadas aos visitantes do Legislativo, receberam pessoas interessadas no feito inédito: trazer a Ilíada para um dos principais prédios históricos da capital do Paraná.

Bruna Marcelino e Vinícius Peretti, estudantes de Letras da UFPR (Universidade Federal do Paraná), souberam da iniciativa pela internet. “Vimos no Facebook, e como estudamos a Ilíada nesse semestre, viemos”, contaram. Os dois têm 18 anos de idade e estavam desconfiados. “Eu achei que ia ser uma encenação, com atores, cenário…”, confessou Vinícius. Às 20h20, o estudante de Letras não escondia a surpresa. “Sabe quando você espera uma coisa e acontece algo melhor?”, disse. “Foi surpreendente!”, completou Bruna. Ela disse que passava todo o dia na frente do Palácio Rio Branco, achava o bonito, mas não sabia do que se tratava.

Márcia e Maria Rodrigues são irmãs. A primeira, veio “pelo inusitado”, “por ser fora do convencional”. A segunda, que já tinha visto outro canto ser apresentado pela Companhia Iliadahomero de Teatro, para ampliar a experiência. Antes mesmo da peça começar, Márcia, que não tinha o mesmo contato prévio da irmã com a proposta, achava que isso poderia atrapalhar. “Achei maravilhoso, apesar da dificuldade com o texto”, comentou ao final do espetáculo. Também souberam da iniciativa pela internet, também não conheciam o Palácio Rio Branco. “É um prédio muito bonito”, concordaram.

Antes de Richard Rebelo, o fundador da Iliadahomero, Octavio Camargo, explicou ao público o trabalho da companhia, criada em 1999, que ano passado interpretou integralmente os 24 cantos da obra. “É a obra mais antiga da literatura ocidental, fundadora da cultura ocidental e da ideia de democracia. Por isso interpretar ela aqui, dentro da Câmara de Vereadores, tem um conteúdo simbólico muito forte”, analisa Octavio. Para ele, a iniciativa é um chamado à população para que ela ocupe seu lugar no espaço público, “frequente mais, participe dos debates, converse mais com os representantes”.

Boa noite. É um prazer e uma honra estar aqui na Câmara Municipal de Curitiba, o parlamento do município. Este é um espaço que deve muito ser ocupado pelo povo; aqui os representantes decidem as leis, estabelecem as políticas da cidade, mas, o principal motivo que deve mover o representante público é o povo, a população, então, eu fico muito feliz que este espetáculo e o trabalho que a gente vem fazendo com a Ilíada teve dentre a sua trajetória essa perspectiva de trazer vocês aqui hoje. Eu espero que isso continue, que siga como uma programação e que se torne um hábito mais comum do cidadão curitibano frequentar esse espaço de debate.

Quero agradecer muito e parabenizar a iniciativa do vereador Goura, que teve o ímpeto de trazer a ideia para esta casa. Espero que ela seja duradoura e profícua.

A Ilíada é certamente o texto da tradição antiga que sobrou, o primeiro texto do ocidente. E é justamente na Ilíada que se estabelecem os valores básicos da democracia tal qual a gente a conhece. Inclusive, a primeira assembleia da história ocidental acontece na Ilíada, no Canto 1. Os gregos estão padecendo de peste, ali acampados próximo à Tróia e, Aquiles, que é um dos reis congregados, resolve chamar uma assembleia para debater a situação porque o exército estava todo morrendo, e o rei, até então, não tinha tomado nenhuma providência. Este gesto é a semente da democracia no ocidente, onde não apenas aquele que manda, o chefe absoluto pode ter a palavra, mas aqueles que compõe a mesma iniciativa também podem ter acesso e voz às decisões.

O que aconteceu nessa primeira assembleia é que Aquiles estava falando pelo bem do povo que estava morrendo, e Agamenom, o rei dos gregos e chefe daquela expedição não gostou muito daquela conversa porque, segundo Calcas Testórides, o profeta que foi chamado pra explicar o caso, a culpa era do rei. Então, era um assunto indigesto pro Agamenom. Como era para o bem do povo, Agamenom foi obrigado a entregar a escrava que ele tinha, a Criseida, para que os gregos não morressem de peste ali na praia. Mas, em troca disso ele toma a escrava de Aquiles, a Briseida, e o Aquiles, o maior guerreiro dentre os gregos, a partir de então resolve não lutar mais. Ele diz: – olha, vocês me ofenderam, eu vou cruzar os braços, decidam a guerra vocês. Esse é o tema principal da Ilíada. Na verdade é uma disputa interna, um dissenso entre os gregos na ocupação de Tróia, que acarretou em muitas mortes. Homero, no início da Canto 1 lamenta esse fato, essa briga entre Aquiles e Agamenom que provocou a morte de muitos jovens. A dor que Homero apresenta ali não é tão somente a dor pela morte do ser humano, porque a morte é natural, mas ele lamenta a morte antes do tempo e, talvez, este seja o grande princípio civilizatório, o ser humano não luta contra a morte porque todos nós iremos morrer; a gente luta é contra a morte prematura, a morte injusta ou a vida desassistida.

No Canto 16 acontece um fato muito importante na Ilíada, que é a morte de Patroclo, o principal amigo de Aquiles, uma pessoa pela qual ele tinha um afeto enorme. Aquiles é o tempo todo solicitado a ajudar os gregos, a salvar os navios, e ele está tão abalado com o Agamenom que ele se recusa a guerrear, e só quando morre o Patroclo, que é o melhor amigo dele é que ele resolve voltar a lutar.

Nós estamos fazendo aqui o Canto 16 por várias motivações, uma delas é a trajetória do Richard, que é um dos decanos da nossa companhia, iniciou junto os trabalhos dos primeiros quatro cantos, com a Patrícia Reis, que está aqui, e o Lourinelson Vladmir; eu, na época dizia também um canto da Ilíada. O Richard já apresentou esse texto na Biblioteca Nacional, em 2006, apresentou também no Museu da República, em comemoração ao Dia Internacional dos Museus. Em janeiro deste ano apresentou no Irã, a convite da Universidade de Teerã. E dentro desse trânsito todo, fazendo em diferentes cidades e países, a gente veio a perceber que talvez esse nosso projeto seja um projeto pioneiro no mundo. Eu ouvi do embaixador da Grécia no Irã que ele não tem conhecimento de nenhum outro grupo que performatize a Ilíada inteira como nós fazemos, com o texto integral. Então, esse é um dos sentidos de nós estarmos trazendo o Canto 16 aqui, e ele traz essa metáfora muito importante para o momento em que a gente está vivendo: o Aquiles resolve voltar à guerra somente depois que perde o melhor amigo, depois que muitos morrem, e talvez seja esse um ponto pra gente pensar, não é? Será que a gente deve esperar ‘a frota queimar’ para depois ir em socorro? Talvez uma espécie de exortação de que a gente não deve esperar o pior acontecer para só então agir. Devemos agir enquanto há tempo.

É importante falar do Odorico Mendes por vários motivos. Manoel Odorico Mendes é não só nosso Homero brasileiro, mas, o Virgílio brasileiro, pois ele traduziu toda a obra do Virgílio para o português e toda a obra de Homero. Não publicou em vida, a Ilíada e a Odisséia foram publicadas após sua morte, e o Odorico foi um parlamentar. Exerceu quatro legislaturas e participou da primeira assembleia legislativa brasileira. Então, o Odorico Mendes, além de ser um intelectual e artista do naipe que era, foi uma das pessoas que ajudou a construir o Estado brasileiro. É um exemplo pra gente pensar sobre a importância da Cultura na atuação parlamentar. O Odorico Mendes deixou escrito algumas indicações para a publicação da obra dele, e ele tinha por finalidade, para além do seu ideal artístico, ensinar literatura portuguesa aos brasileiros. Ele queria facilitar o acesso ao acúmulo do conhecimento histórico e às coisas que ele, alguém que teve acesso a estudar na Europa pode ler, e trazer isso para um público maior.

Quero mais uma vez agradecer a presença de todos e lembrar que a presença da arte aqui pode, de alguma maneira, trazer novas esperanças e mais luzes para a cidade. Com vocês, o Canto 16 da Ilíada, com Richard Rebelo!

Octavio Camargo

Em janeiro deste ano, Octavio e Richard estiveram na cidade de Teerã, capital do Irã, graças a uma parceria das embaixadas do Brasil e da Grécia. A mesma apresentação performada no Palácio Rio Branco fez parte de uma maratona de leitura de Homero na 35ª edição do Fadjr Festival Internacional de Teatro. “Tenho o desejo de que um dia [a companhia] vai ser vista aqui com a mesma importância que no Irã. Os gregos ficaram espantados”, disse Richard, ao final do espetáculo. Ele, sozinho e trajado casualmente, apenas com voz e gestos, à moda antiga, num diálogo com Homero, arrancou “surpreendente” e “maravilhoso” daquela plateia.

Nós somos sim um grupo único de homeristas no mundo. A gente descobriu isso em Teerã no começo do ano, quando eu e o Octavio estivemos lá participando de um festival internacional pela embaixada do Brasil e o consulado grego, e nós descobrimos o quanto decorar um texto assim e fazê-lo como um rito, do jeito que se fazia há muito, muito antigamente, é uma coisa que não se faz hoje em dia, e mesmo os gregos ficam espantados com isso. Para nós é uma satisfação, para a cidade é um grande presente.

Nós estamos há dezessete anos preocupados com a educação, leitura e cultura, nosso trabalho é muito sério e tem muita qualidade. Um dia, eu tenho certeza disso, um dia ele vai ser visto de uma maneira muito importante nessa cidade e no Brasil, da mesma maneira como nós fomos vistos lá na Pérsia e alguém disse: vamos trazê-los para cá! E a história, resumidamente, foi que em dez dias fez-se passaportes, comprou-se passagens e chegou-se a Teerã, no Irã, para participar de um importante festival, duas pessoas dessa cidade levando um trabalho que tem dezessete anos e envolve muita gente. Obrigado Gilson, obrigado Patrícia, Campelli e a todos da Cia Iliadahomero. Se quiserem acompanhar, em iliadahomero.wordpress tem toda a história da nossa companhia. Obrigado e boa noite.

Richard Rebelo

Fontes:
https://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=27666#&panel1-1
https://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=27705#&panel1-1
www.bemparana.com.br/pista1/arnica-fechada-e-iliada-na-camara-sensibilizai-vos-parlamentares/

Documentação: Gilson Camargo


Arte do cartaz: Matheus Urbano/CMC

Documento em vídeo produzido por Rafael Bertelli / Mandato vereador Goura.

Chamada para o evento produzida por Rafael Bertelli / Mandato vereador Goura.

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