Odisseia, Canto 16 – Raquel Rizzo – Sala 603, Curitiba/PR

O pai encontra o filho. Ulisses e Telêmaco na cabana do porqueiro. 

Ulisses chega disfarçado de mendigo em Itaca. Lá é acolhido pelo porqueiro Eumeu, único servo que se mantinha fiel. Os cães fazem festa para um conhecido que se aproxima, é Telemaco que acaba de chegar. Telemaco fala com Eumeu e o trata como a um irmão devido ao carinho que este lhe tem. O porqueiro conta o que está acontecendo em Ítaca, que os pretendentes continuam em sua casa. Ulisses, disfarçado de mendigo acompanhava a conversa do filho. Telemaco pergunta de onde era o forasteiro. O porqueiro lhe conta que é um viajante que veio de Creta e que seu destino é vagar pelas cidades. Ulisses pergunta por que Telemaco deixa que os pretendentes abusem de seus bens. Telemaco responde que nada pode fazer, pois há muitos nobres da região que desejam ocupar o lugar de seu pai. Telemaco pede que o porqueiro avise Penélope que ele chegou de Pilos e que está bem. Eumeu vai avisar Penélope. Atena torna Ulisses jovem de novo, este aparece para Telemaco que, assustado, pensa ser ele um deus. Ulisses diz que é seu pai. Telemaco não acredita, mas Ulisses explica que Atena o ajudou e conta como chegou até lá, trazido pelos Feáceos. Ulisses pede que Telemaco lhe conte quantos são os pretendentes e como são para poderem articular uma vingança. Telêmaco teme que se Ulisses sozinho quiser se vingar de todos, fracassará. Ulisses pede que Telemaco veja se precisarão de ajuda, ou se Atena e Zeus lhe bastarão, e conta-lhe seu plano. Enquanto isso, Penélope ficara sabendo que o filho havia retornado. Os pretendentes vêem o barco vindo e se reúnem planejando a morte de Telêmaco. Antíno fala: quer que matem Telemaco, repartam seus bens e que Penélope escolha com quem casará e este ficará com a casa. Porém, Anfínomo teme matar alguém de sangue nobre, prefere consultar o oráculo e, se este consentir, aí sim matá-lo. A proposta agradou os pretendentes que foram até a casa de Ulisses. Lá, Penélope aparece e repudia publicamente Antíno por planejar a morte de seu filho. Eurímaco responde-lhe que não se preocupe, pois ninguém tocará em seu filho. Ao entardecer, Eumeu voltou para a cabana. Para que Ulisses não fosse reconhecido pelo porqueiro, Atena o havia transformado novamente em mendigo. Jantam os três, e dormem.

Registro integral em vídeo da récita em 12/12/2017.

Narrador 1

O herói de madrugada e Eumeu divino
Fogo acendem na choça e almoço aprestam,
Indo os serventes pastorar os porcos.
Sem latir, a Telemaco aventando,
O festejavam cães; sentindo Ulisses
As caudas a mover-se:

Ulisses 1(a)

“Eumeu,

Narrador 2

gritou-lhe,

Ulisses 1(b)

Ou sócio ou conhecido se aproxima;
Tropel me soa, e os ledos cães não ladram.”

Narrador 3

Mal acabava, à porta o jovem pára;
E, pulando o porqueiro atabalhoado,
Caem-lhes os vasos e o licor transfuso;
A encontro, as mãos lhe beija e a testa e os olhos.
Qual pai, ao décimo ano, ameiga a prole
De longes terras vinda, a só que em velho
Teve e lhe suscitou mil pesadumes;
Tal o pastor seu amo acaricia,
Como um ressuscitado, e exclama e chora:

Eumeu 1

“Eis-te, meu doce lume! dês que a Pilos
Navegaste, rever-te não contava.
Entra, meu coração deleita, ó filho,
A nós restituído: raro o campo
Visitas e os pastores; na cidade,
Continuo observas os funestos procos.”

Telemaco 1(a)

“Velho irmão,

Narrador 5

diz Telemaco,

Telemaco 1(b)

obedeço;
Ver-te e ouvir-te aqui venho; tu me informes
Se inda está minha mãe no seu palácio,
Ou se casou: talvez aranhas torpes
Jazam de Ulisses no vazio leito.”

Eumeu 2(a)

“Ela,

Narrador 6

o informa o pastor,

Eumeu 2(b)

no teu palácio
Constante sofre; a suspirar consome
A noite aflita e o lagrimoso dia.”

Narrador 7

A lança então recebe, e o amo salva
A lapídea soleira. O assento Ulisses
Quer ceder, mas Telemaco o proíbe

Telemaco 2

“Não te incomodes, hóspede; um assento
Me ajeitarão.”

Narrador 8

Seu posto Ulisses toma;
Ele abanca-se em ramos que de peles
Eumeu forra. O pastor pães em cestinhos,
De assados põe de véspera escudelas,
Num canjirão mistura o doce vinho,
Do grã Laércio em frente se coloca;
Os comensais atiram-se às viandas.
Fartos enfim, Telêmaco interroga:

Telemaco 3

“Velho irmão, como este hóspede aqui veio?
Que nautas o trouxeram? De que terra?
A Ítaca não creio a pé viesse.”

Narrador 9

Assim falaste, Eumeu:

Eumeu 3

“Digo a verdade.
Ser de Creta blasona, e haver corrido
Muitas cidades por divino influxo.
De nau Tesprócia escapo, aqui chegou-se.
Dispõe dele a prazer, eu to encomendo;
Súplice teu se ufane.”

Telemaco 4(a)

— “Amigo,

Narrador 10

o jovem
Lhe bradou precavido,

Telemaco 4(b)

que proferes?
Comigo ter um hóspede! Não posso,
Tão moço, defendê-lo de uma afronta:
Minha mãe ora no ânimo cogita
Se, dedicada ao filho, a seu marido
E ao público respeite, ou se dos Gregos
Se una ao melhor que à larga a presenteia.
Já que nesta choupana o recolheste,
Capa e túnica, ancípite uma espada
E sandálias terá, terá passagem
Para onde se lhe antoje. Hei de mandar-lhe,
Se o cá deténs, a roupa e o mantimento,
Para não te comer e aos sócios tudo.
É perigo na régia apresentá-lo;
Os soberbões cruéis o insultariam,
Agra dor para mim: do herói mais forte
Contra muitos e tais é baldo o empenho.”

Narrador 11

O pai se entremeteu:

Ulissses 2

“Se opinar devo,
O que, amigo, te ouvi rói-me as entranhas:
Sendo quem és, tiranos tais protervos
A teu olhos conspiram! Não resistes,
Ou por celeste voz te odeia o povo?
Acusas tu a irmãos, em cujo esforço
Nas maiores discórdias confiamos?
Por que a idade ao valor não corresponde!
Por que não sou seu filho, ou mesmo Ulisses,
Em quem inda se espera! Esta cabeça
Me cerceassem, do Laércio aos paços
Despejo tal se castigar não fosse.
Antes morrer, da vil caterva opresso
Nos lares meus, que vê-los sem decoro,
Violadas servas, hóspedes vexados,
Sem fruto as produções e o vinho exausto.”

Narrador 12

Respondeu-lhe Telemaco:

Telemaco 5

“Em verdade,
Nem povo hostil, nem meus irmãos acuso,
Em quem mais nas discórdias confiamos.
Fez Jove solitária a nossa estirpe:
De Arcésio foi gerado o só Laertes;
Só foi deste meu pai; só fui de Ulisses,
Que não fruiu das filiais carícias.
Tem ora inçada a casa de inimigos:
De Ítaca bronca, de Zacinto umbrosa,
E de Same e Dulíquio, os optimates
Requestam minha mãe, seus bens consomem
Ela as núpcias odiosas nem rejeita,
Nem as conclui; entanto, os pretendentes
Hão de em breve de todo arruinar-me:
Jaz porém minha sorte aos pés dos numes.
Eumeu, sus, à rainha me anuncies
Incólume de Pilos: cá não tardes;
Nenhum te sinta que meu dano teça.”

Eumeu 4(a)

“Percebo,

Narrador 13

diz Eumeu;

Eumeu 4(b)

terei cautela.
De uma via posso eu participá-lo
A teu mesquinho avô? Com mágoa embora
Do ausente filho, aos servos presidindo,
Se nutria à vontade; mas, a Pilos
Dês que te foste, o vinho enteja e o pasto,
Esquece-lhe o trabalho, e geme e chora,
Tábida a cútis se lhe apega aos ossos.”

Telemaco 6(a)

“Triste aflição!

Narrador 14

Telemaco pondera;

Telemaco 6(b)

Mas deixá-lo na dor convém por ora:
A nosso arbítrio se estivesse tudo,
Era aqui já meu pai. Tu anda e volta,
Para o avisar no campo não divagues;
Minha mãe que despache a despenseira,
E esta em segredo o comunique ao velho.”

Narrador 15

As sandálias Eumeu calçado, parte.
A partida a Minerva não se esconde
Que tem-se à entrada, na gentil figura
De moça airosa e no lavor perita.
A Telemaco invisa (um nume a todos
Não se apresenta), Ulisses a descobre,
E os cães também, que sem ladrar fugiam
Pelo pátio a ganir. Das sobrancelhas
Ao sinal, entendido sai da choça
E extramuros o herói; fronteira Palas:

Minerva 1

“Divo Laércio, diz, abre-te agora
Com teu filho; à cidade encaminhai-vos
O extermínio a tramar dos pretendentes:
Sem mora a combater serei convosco.”

Narrador 16

Eis de áurea vara o toca; da alva capa
E da túnica dantes o reveste,
O engrandece e vigora o nédio rosto,
Morena a cor de novo, azula a barba.
Isto completo, retirou-se Palas.
Volve Ulisses; pasmado o filho caro
Vira os olhos, temendo que um deus fosse,
Veloz fala:

Telemaco 7

“Diverso me apareces,
Tens, hóspede, outras vestes e outra cútis;
Certo és um dos celícolas. Benigno
Tu nos perdoa, e gratos sacrifícios
E áureos dons haverás.”

Narrador 17

Súbito Ulisses:

Ulisses 3

“Não sou deus, a imortais não me equipares;
Sou teu pai, sou quem choras, quem suspiras,
Por quem padeces vitupérios tantos.”

Narrador 18

Nisto a seu filho beija, e à terra a pares,
Não mais contidas, lágrimas borbulham.
Mas Telemaco incerto:

Telemaco 8

“Eu não te creio;
Não és meu pai, és deus que assim me enganas
E aumentas minha dor. Um simples homem
Por si não se transforma em velho ou moço:
Tu, decrépito há pouco e mal trajado,
Um íncola do Olimpo ora semelhas.”

Narrador 19

Contesta o sábio herói:

Ulisses 4

“Não te é decente
Filho, surpresa tal, nem outro Ulisses
Verás; sou eu, que, após tremendas provas,
Chego ao vigéssimo ano à pátria amada.
A predadora Palas me converte
Num apôsto mancebo ou num pedinte:
A prazer, aos celícolas é fácil
Tornar qualquer mortal formoso ou torpe.”

Narrador 20

Aqui, sentou-se; o príncipe entre os braços
O estreita a soluçar: incita o amplexo
O desejo de lágrimas em ambos:
Seus gemidos estrugem, quanto os grasnos
De abutres e águias de recurvas unhas,
A quem pilhou pastor ninhada implume.
E o Sol cadente em prantos o deixara,
Se Telemaco ao pai não perguntasse:

Telemaco 9

“Que nautas cá, meu pai, te conduziram?
A Ítaca a pé de certo não vieste.”

Narrador 21

O paciente Ulisses respondeu-lhe:

Ulisses 5

Transportaram-me os ínclitos Feaces,
Que usam fazê-lo aos mais que lá naufragam.
No ligeiro baixel dormindo sempre,
Fui deposto na praia, de ouro e cobre
E belas teias rico; dons que em antro
Por divino favor se arrecadaram.
Palas mandou-me aqui tratar contigo
Do estrago desses procos: quais e quantos
Numera-os tu; pois no ânimo valente
Pesarei se podemos debelá-los,
Ou se nos é mister auxílio estranho.”

Narrador 22

Mas Telemaco:

Telemaco 10

“Eu sei, pregoa a fama,
Quão prudente és, meu pai, guerreiro e forte;
Nímio porém me assombra o teu discurso:
Dous sós, tantos valentes combatermos!
Nem dez são, nem o dobro: enviou Dulíquio
Cinqüenta e dous galhardos, com seis pajens;
Oitenta e quatro, Same; tem Zacinto
Vinte Gregos de prol; Ítaca mesma,
Ótimos doze, com Médon arauto
E o cantor, mais dous hábeis cozinheiros.
Temo, se a todos atacarmos dentro,
Que proves ao regresso amargos transes:
Olha se ativo auxiliar careias.”

Narrador 23

Ulisses retorquiu-lhe:

Ulisses 6

“Ouve-me; atenta
Se nos bastam Minerva e o pai Satúrnio,
Ou se outro ajudador nos é preciso.”

Narrador 24

Logo o filho:

Telemaco 11

“Esses podem lá das nuvens,
Mais que homens e outros numes, socorrer-nos.”

Narrador 25

De novo Ulisses:

Ulisses 7

“Longo tempo fora
Não serão da peleja, ao decidi-la
Em meu palácio o marcial denodo.
Vai n’alva reunir-te aos arrogantes;
Serei, na forma de um mendigo anoso,
Guiado por Eumeu. Sofre no peito
Que da nossa morada eles me enxotem,
Rojem-me a pontapés e golpes vibrem;
Com doçura os modera, a dor sopeia:
Nenhum te escutará, que os cerra o fado.
N’alma isto agora imprime: quando Palas
Mo influir, ao meu nuto as armas leves,
Que estão na sala, para o andar cimeiro;
E caso alguém o estranhe, assim te escuses:
— Quais as deixou meu pai, já não luziam,
Do vapor do fogão fui preservá-las;
E outro medo o Satúrnio suscitou-me:
Entre os copos, ferir-vos poderíeis,
Nosso convívio e os esponsais manchando;
Pois a força do ferro atrai o homem.
Reserva para nós só dous alfanjes,
Dous maneiros broquéis e lanças duas,
Para a divina empresa: hão de Minerva
E o providente Jove conturbá-los.
E se és meu sangue, filho, em ti sepultes
Este arcano; de Ulisses ninguém saiba.
Laertes, o pastor, qualquer dos servos,
Nem Penélope mesma. Só tentemos
O pensar das mulheres; qual dos nossos
Nos respeita e aprecia; de seus amos
Qual ingrato se esquece e te honra pouco.”

Narrador 26

E o filho:

Telemaco 12

“Ó pai, conhecerás, espero,
Que nem cobarde sou, nem leviano:
Mas julgo, e tu reflitas, que a nós ambos
É dúbio o lance. Ao passo que examines
Os servos um por um, de prédio em prédio,
Os tais sem dó nem pejo a casa esbanjam.
Das mulheres, concordo, é bom que indagues,
Das ruins que teus lares enxovalham:
Quanto aos homens, difere até que acene,
Se teu acenar, o egípero Satúrnio”

Narrador 27

Entretanto, abordava a nau remeira
Que trouxera a Telêmaco de Pilos;
Em seco e desarmada, os da equipagem
De Clito em casa os ricos dons puseram.
À prudente rainha arauto expedem
A anunciar que o filho, já no campo,
Os mandava vogar para a cidade;
E a mãe suspenda os prantos e os temores:
O arauto e Eumeu se encontram no caminho.
Do rei divino ao pórtico chegados,
O arauto grita em público:

Arauto 1

“Senhora
Veio o caro Telemaco.”

Narrador 28

Em voz baixa
Expondo Eumeu do príncipe o recado,
Sai do recinto e a seus currais se torna.
Mestos os pretendentes, ante as portas
Sentam-se externas. De Pólibo o nado
Eurímaco encetou:

Eurimaco 1

“Cumpriu-se, amigos,
Plano audaz que julgávamos falhasse,
E regressou Telemaco: esquipemos
Outro lesto baixel que advirta os sócios.”

Narrador 29

E vôlto ao mar Anfínomo, um navio
Entrando a remos no profundo porto
Viu, já dobrado o pano, e a rir começa:

Anfinomo 1

“É supérfluo um aviso, ei-los que arribam.
Ou lho disse algum deus, ou deram caça
E lhes fugiu Telemaco.”

Narrador 30

Eles presto
Vão-se à praia; a maruja, a nau varada,
A despia de enxárcias e aparelhos.
Ali junto um conselho, sem que ou moço
Ou velho se abancasse, Antino enceta:

Antino 1

“Os Céus a ponto, amigos, o salvaram!
De dia assíduas em ventosos cumes
Sentinelas havia; ao Sol ocaso.
Rumo do mar, à noite navegando,
Nunca em terra dormíamos, à espera
Que ao rosicler da aurora aparecesse
E insidiado vítima nos fosse:
Um nume o protegeu. Deliberemos:
Se viver, malogrado é nosso intento.
Ele é firme e discreto, e já não somos
Como dantes benquistos: crede, ao povo
Excitado arengando em parlamento,
A nossa trama explicará baldia;
E o povo em sanha, desta ação bramindo
Pode exilar-nos para estranha terra.
Ou no campo ou na estrada combinemos
Dar cabo dele: haveres e tesouros
Partilhando igualmente, à mãe cedemos,
E ao marido que eleja, este palácio.
Vivo se inda o quereis, e em plena posse
Dos bens paternos, é melhor cessarmos
De lhos comer; e cada qual, dotando-a,
A resqueste de casa: ela que espose
Quem mais a prende ou favoneie a sorte.”

Narrador 31

Emudeceram; mas ergueu-se Anfínomo,
Do Axetíades Niso real prole,
Chefe dos procos de Dulíquio herbosa
E pingue em cereais, por bom e afável
Mais à rainha grato, e orou sisudo:

Anfinomo 2

“Amigos, eu me oponho. A régio garfo
Árduo é matar; os deuses consultemos:
Se o reto Jove o aprova, eu mesmo os golpes
Hei de vibrar afouto e compelir-vos;
Do contrário, nos cumpre aquietarmos.”

Narrador 32

Prevalece este aviso, e levantados,
Vão-se ao palácio em tronos se recostam.
A sensata Penélope, instruída
Pelo arauto Médon do atroz conluio,
Presentar-se resolve aos afrontosos;
Entre mulheres, véu luzido ao rosto,
Majestosa ao limiar da ornada sala,
Increpa Antino:

Penelope 1

“Em vão, cruel, te aclamam
Dos coevos primeiro em siso e falas;
Néscio, ante Jove aos súplices atento,
Urdes ao meu Telemaco a ruína!
É ímpio de outrem cogitar a morte,
Esqueces que teu pai teve este asilo,
Fugindo à multidão, pós ele acesa
Porque aos Táfios ladrões se unira em dano
Dos aliados nossos os Tesprotes?
Rasgar-lhe o peito e os bens queria o povo
Destruir-lhe; o furor susteve Ulisses:
Desonras deste a casa, a esposa tentas,
Matas-lhe o filho, minha dor cumulas.
Cessa, Antino, e teus cúmplices que cessem.”

Narrador 33

Eurímaco arengou:

Eurimaco 2

“De Icário, ó prole,
Bane d’alma o temor; nem há, nem houve,
Nem haverá quem mãos ponha em teu filho,
Enquanto eu vir o Sol. Digo e executo:
Nesse traidor ensoparia a lança.
O turrífrago Ulisses amiúde
Aos joelhos me serviu de vinho e carnes:
A Telêmaco eu amo sobre todos.
Não receies que a morte lhe inflijamos:
A que vem do Supremo não se evita.”

Narrador 34

Ele a conforta, e o crime ruminava.
Ela sobe, e na câmara estupenda
Geme o querido esposo, até que os lumes
A olhi-cerúlea em sono lhe abebera.
Vindo o pastor à tarde, para a ceia
Um bácoro feriu. Da vara ao toque,
Logo, ao Laércio avelhantou Minerva,
Em trapos o envolveu: se o conhecesse,
Poderia a Penélope ir contá-lo,
E um nem outro conter-se.

Telemaco 13(a)

— “Eumeu divino,

Narrador 35

Adiantou-se o mancebo,

Telemaco 13(b)

que há de novo?
Estão já dentro os arrogantes procos,
Ou de espera no estreito me insidiam?”

Narrador 36

Respondeste, ó pastor:

Eumeu 7

“Vagar não tive
De o saber; apressado as ruas corto,
Noticio e regresso. Mas um núncio
Topou-me, que teus sócios expediram;
Ele é que a tua mãe falou primeiro.
Ouve agora o que vi: já fora estava
De Mercúrio no monte, quando o porto
Navio entrou veloz, de gente cheio,
De éreos broquéis e bipontudas lanças:
Que eles eram suspeito, eu não to afirmo.”

Narrador 37

Olhos volvendo ao pai, sorri-se o moço
E esquiva os do pastor. Já pronto o assado,
Logram-se do convívio, sem queixume
De porções desiguais. Depois, refeitos,
Na cama em sono doce adormeceram.

Ficha técnica:

Direção: Octavio Camargo
Cenografia: Fernando Marés
Iluminação: Lucan Vieira – Agradecimento à Rodrigo Ziolkoski (RZ Luz)
Arte Gráfica: Foca Cruz
Documentação: Gilson Camargo

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