Ilíada, Canto 24 – Andressa Medeiros – Universidade Federal do Paraná

Ao longo dos seus 19 anos de existência a Cia. Ilíadahomero de Teatro tem mantido seu compromisso com a arte e educação, valorizando as letras clássicas e o teatro, desenvolvendo técnicas de incentivo a leitura, realizando palestras em escolas e colaborando na formação de leitores a partir da encenação integral dos cantos da Ilíada e da Odisséia de Homero.

Nossa parceria com a Universidade Federal do Paraná teve início em 2000 quando foram apresentados os Cantos 1, 3, 16 e 24 na sala Homero de Barros, em atividade organizada pelo Centro Acadêmico de Letras. Em 2009 apresentamos o Canto 22 da Ilíada no encerramento da Semana de Letras, e em 2011 o Canto 24 no Congresso Antigos e Modernos. No ano de 2016 abrimos o IV Congresso da Sociedade Brasileira de Retórica, com o Canto 24, no Teatro da Reitoria.

O Canto 24 da Ilíada foi apresentado novamente por Andressa Medeiros durante o evento acadêmico “Convivium: a recepção”, promovido pela área de Letras Clássicas da UFPR (Grego Antigo e Latim), paralelamente à Semana de Letras, dos dias 5 a 12 de maio de 2018, que objetiva ampliar o modelo tradicional baseado em palestras, promovendo atividades culturais e interativas que permitam perceber a cultura clássica como viva. O evento contou com performances, declamações, cine-debate e jogos de mesa.

Veja abaixo fragmentos do texto ilustrados com imagens da récita, realizada no Anfiteatro 1000, do Edifício D. Pedro I, em Curitiba.

“Nada receies, Príamo. Aqui Jove
Benévolo me envia, e longe embora,
De ti se compadece e tem cuidado.
Que resgates Heitor ele te ordena,
E o Pelides com dádivas comovas;
Que vás às naus sozinho, e idoso arauto
Governe andejas mulas e a caleça
Onde o morto carreies: e vai sem medo,
Guiar-te-á Mercúrio aos pés de Aquiles.
Do herói ofensa alguma ali não temas,
Nem de qualquer: sisudo, humano e atento,
Um suplicante poupará benigno.”

“Onde o siso d’antes,
Que estrangeiros e Teucros te louvavam?
Sozinho ires às naus e ao cru verdugo
Dos teus guerreiros numerosos filhos!
De ferro entranhas tens. Se ele te empolga,
Sem dó, respeito ou fé, será contigo.
No interior destes paços o choremos;
Pois ao pari-lo eu mesma, a feia Parca
Fiou que, de seus pais ele apartado,
Fartasse a gula dos sanhudos perros
Do cruel, cujo fígado eu trincara
Para vingar ultrajes do meu filho…
Ah! nem fugiu, nem se esquivou cobarde;
Morreu firme, por Tróia e pelas Teucras
De regoado seio combatendo.”

“Potente sumo deus, que do Ida imperas,
Dá que benigno se apiade Aquiles;
Tua águia mais dileta envia à destra;
Vejam-na os olhos meus, para que afouto
Às naus eu vá dos furibundos Gregos.”

“Lembre-te, ó Pelides,
O idoso pai, como eu posto à soleira
Da pesada velhice. Por vizinhos
Talvez opresso, defensor não tenha;
Vivo ao menos te sabe, e folga e espera
Ver tornar cada dia o egrégio filho.
Ai! Gerei tantos bravos na ampla Tróia,
Dos quais eu penso que nenhum me resta.
Cinqüenta ao vir o assédio, eram de um leito
Dezenove, os demais de outras mulheres:
Morte nos tem cegado quase todos.
O único esteio nosso, pela pátria
A combater, acabas de roubar-mo,
Heitor… Venho remi-lo à frota Argiva
Com magníficos dons. Respeita os numes;
Por teu bom pai, de um velho te apiades:
Mais infeliz do que ele, estou fazendo
O que nunca mortal fez sobre a terra:
Esta mão beijo que matou meus filhos.”

“Não me irrites, basta;
Heitor hei-de render, que prescreveu-mo,
De Jove em nome, a genetriz Nereida.
Sei, não mo ocultes, Príamo, às naus Graias
Conduziu-te algum nume: entrar no campo
Nunca ousara mortal, por mais florente;
Nem iludira os guardas, nem das portas
As barras facilmente descerrara.
Não me comovas mais com teus queixumes;
Inda que és suplicante, eu posso, velho,
Expulsar-te, infringindo a lei de Jove.”

Arredam-se, e a caleça ao paço roda.
Em recortado leito o herói colocam,
E músicos ao pé entoam nênias,
A que o femíneo gemebundo coro
Triste responsa. A bracinívea Andrômaca,
A cabeça ao bravíssimo sustendo,
O luto enceta:

Ligam presto às carroças bois e mulos,
Juntam-se ante a muralha. Ingentes cargas
De lenha acarretando nove dias,
Ao décimo entre lágrimas levantam,
E no cimo da pira Heitor colocam,
E ateiam fogo. A dedirrósea Aurora
Veio raiando, e a gente refervia.
Depois que em roxo vinho apagam todos
Em roda a chama, seus irmãos e amigos,
De arroios d’água as faces alagadas,
Em urna de ouro os brancos ossos colhem,
De finos mantos carmesins coberta,
Na cova a metem, que por cima forram
De grossas lajes. Do sepulcro ereto
Em roda há sentinelas, que previnam
Dos de greva louçã qualquer ataque.
Já tumulado, aos paços reverteram,
Onde Príamo rei, de Jove aluno,
Lhes deu funéreo esplêndido convívio.
Heitor doma-corcéis tais honras teve.

Após a récita, houve uma conversa com o professor Octavio Camargo, a atriz Andressa Medeiros, e o ator e cenógrafo Fernando Marés, sobre os por quês da opção pela tradução de Manoel Odorico Mendes e as atividades dos rapsodos da Cia Iliadahomero.

Fotos: Gilson Camargo

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